segunda-feira, 4 de junho de 2012

Osasco: a pujante cidade dos sofás abandonados


Sofás velhos: o outro lado da pujança econômica...


 

Moro numa cidade pós industrial da grande São Paulo, um lugar quase sempre de céus acinzentados e paisagens que parecem em alguns trechos, uma mistura daquelas  vilas operárias inglesas – Manchester, pelo que vi em fotos– com outras mais de acordo com nossa realidade, como aquelas que vemos em imagens de alguns empoeirados bairros da Bolívia, Colômbia ou algo assim. O fato é que é quase impossível definir a paisagem de uma cidade como esta na qual vivo – Osasco, grande São Paulo – pois é um lugar que está e esteve desde a origem, no centro de tudo o que transformou a cidade de São Paulo, o próprio estado e até o Brasil, no que temos aí hoje (de bom, ruim e inexplicável).
 Entre as décadas de 1920 e 1950, Osasco tinha inúmeras fábricas, aquele foi o tempo da chegada de imigrantes que vinham de todo o país e de todo mundo para trabalhar nestas fábricas e para fazer a ‘locomotiva’ funcionar.  A cidade cresceu de forma rápida e desordenada, desgarrou-se da capital emancipando-se em 1962 e   a urgência em resolver os muitos problemas de acomodação para aqueles que chegavam, a tornou um verdadeiro ‘caldeirão’ sempre prestes a explodir.
E, neste caso, a metáfora não é tão exagerada quanto se pensa, pois algumas explosões de fato aconteceram: a cidade foi palco de inúmeras greves trabalhistas e também na década de 1960 esteve no centro das muitas  lutas que envolveram tanto operários quanto estudantes contra a ditadura militar (é que muitos destes operários eram também estudantes universitários e esse fato explica a ‘qualidade’ das lutas trabalhistas que foram travadas por aqui).
 Vários artistas representativos da geração que lutou contra a ditadura moravam e ainda moram em Osasco. Ainda há pelos muros da cidade, reminiscências daqueles tempos, mas as fábricas hoje são poucas e embora a cidade ostente com orgulho desnecessário o fato de ser a 10º mais rica do Brasil e o governo local faça ‘aquelas’ propagandas, o que há é a mesma centena de prédios envidraçados com nomes americanizados (certamente), uma paisagem que quando  vista de cima ou de longe, lembra modernidade e pujança mas que, quando vista de perto, representa apenas o lado mais visível da tal pós- modernidade: os antigos bairros operários vão desaparecendo rapidamente, as antigas  casas são demolidas sem nenhum pudor para que se construam os tais prédios envidraçados com nomes americanizados, os muitos e muitos shoppings e viadutos vão tomando conta de toda paisagem e assim por diante.
 Hoje já são quase 1 milhão de pessoas por aqui – é a 6º mais populosa do estado - e o índice de área verde por habitante é um dos menores do planeta – 0,9m² por habitante, quando o recomendado pela ONU é de 6m² . É claro que a falta de segurança pública e todos os demais problemas gerados por tanta pujança são crescentes também: altos índices de violência, congestionamentos monstro quase todos os dias, mas  o pior de todos os problemas é aquela velha conhecida nossa, a política desonesta que se aproveita de todos os ingredientes deste caldeirão (afinal, este material todo é para eles muito farto e proveitoso) para fazer com que qualquer necessidade – educação pública, segurança, limpeza urbana etc. – pareça um presente, uma oferta generosa.
Osasco é ou não é a cara de qualquer cidade que você já conhece, caro leitor?
E os políticos daqui, lembram algo a você?

E os sofás?

Pois é nessa paisagem urbana acinzentada perdida entre o que seria a mistura de uma vila operária inglesa decadente com uma latino-americana ainda mais decadente, lugar no qual aqueles que (des) governam a cidade tentam construir a qualquer custo algo parecido com o que deve ser Miami ou sei lá o quê, que vejo pelas ruas o resto de toda essa pujança, assim abandonada sob a forma de... sofás!
Aqui em Osasco – ou terra de Os, como muitos carinhosamente a chamam -  é muito comum encontrar sob as árvores, pelas calçadas e praças e ruas,  sofás gigantescos, aqueles que as lojas popularescas vendem em não sei quantas vezes; aqueles que são feitos do material mais vagabundo que existe – porque se tudo mais está mudando tão rápido, está sendo engolido às pressas pelas tantas necessidades pós-modernosas, os sofás também precisam seguir estas tendências, como não?! -  são, quando não servem mais, simplesmente jogados nas ruas e ficam ali, se decompondo diante dos olhos dos passantes, como monstrengos tenebrosos que a mim parecem representar acima de tudo,  a imagem de um tempo que tenta parecer próspero, mas que esconde nas suas entranhas o aspecto que melhor define este nosso começo de século: a impermanência e a indefinição das coisas.
E, por coisas entenda-se desde a paisagem mutante desta cidade na qual vivo com seus prédios envidraçados de nomes americanizados e periferias atulhadas que não param de inchar; até estes simples sofás que largados assim pelas ruas, parecem representar, com certa dignidade (sim!) a decadência orquestrada pelas urgentes (?) necessidades do crescimento econômico a todo e qualquer preço.
 (Para ilustrar o texto, meu amigo Ricardo Inforzato, irritado também com os sofás abandonados (eles são muitos e ‘nascem’ da noite para o dia), criou a ilustração que abre o texto).

6 comentários:

Edcliff disse...

Que coisa hein? Um amigo meu voltou recentemente de um período na Europa, inglaterra, e ele montou muita coisa do ap dele com o lixo deles, coisas como tv de plasma super moderna, microondas e tals.Quer dizer, hj são sofás, amnha pode rolar de tudo. beijos (EDCLIFF)

Ana Maria. disse...

Junte-se o consumismo exagerado ao desleixo "nacional", em todos os sentidos, e temos isso: a maior falta de respeito ao espaço público.
Os sofás abandonados nas ruas poderiam ser, em minha modesta opinião, o retrato do nosso país.
Adorei tudo, cada palavra do que você escreveu e como expressou tão bem essa semelhança.

Ana Vargas disse...

Pois é Edcliff, mas já está rolando de tudo rs Também há muitos carros velhos largados pelas ruas da cidade e Tvs e monitores de computadores eu também já vi.
bjs e bjs e obrigada pela visitinha rs

Eu disse...

Que coisa..
Enquanto uns tem tantos, outros não tem onde sentar..rsrs

Márcio disse...

Seu texto ficou muito bom mesmo, parabéns!
Eu também fico incomodado com a falta de civilidade que algumas pessoas tem em largar tanta tranqueira pela cidade.
De tanto me incomodar, criei hoje uma página no Facebook para registrar com fotos e com o que mais for possível esse descaso. Inclusive, enquanto pesquisava algo sobre o assunto, coloquei um link para seu post por lá. Espero que você autorize :)
Se você quiser colaborar com a página, sinta-se convidada desde já.
http://www.facebook.com/osascosaladeestar
Abraços!

Ana Vargas disse...

Oi Márcio,

Fiquei um tempo sem aparecer aqui e somente hoje li seu comentário: obrigada e sim, vou visitar a página.
Boa ideia a sua: fotografar já é uma forma de protestar contra essa situação.

um abraço

Ana Claudia