segunda-feira, 16 de abril de 2012

A história de Elisa


André Monteiro*



Um dia a Elisa chegou em casa e percebeu que o cara com quem ela estava casada havia quatro anos e meio tinha levado tudo. Por tudo entenda-se: ‘tudo’ o que eles tinham comprado juntos no começo da ‘linda história de amor’ que até então, viviam.
Tudo: fogão, geladeira, cama, sofá e aparelho de som.
Aquele era o tempo das festas de fim de ano, os dias nos quais as pessoas são forçadas pela tradição natalina e consumista, a saírem de suas rotinas e as empresas até organizam almoços internos e todos se cumprimentam, sorriem e podem (finalmente) chegar em casa antes que o trânsito em São Paulo fique ‘daquele’ jeito.
Pois foi por isso que a Elisa chegou em casa mais cedo, ela que trabalhava bem longe, do outro lado da cidade, participara de uma confraternização (a palavra é bonita) na empresa e até pudera levar seu filho, o Pedro (um menininho lindo, de olhar triste que na época tinha 4 anos).
E, então, ambos felizes e afoitos e ungidos pela harmonia que confraternizações provocam (e ainda: carregando presentes e sacolas e lembrancinhas) abriram a porta da casa simples dessa rua igual a todas as outras ruas da cidade pós-moderna que é São Paulo, uma das maiores cidades do mundo e etc. e encontraram um espaço branco e oco e amplo, como devem ser os ermos e gelados mundos lá no Alasca ou na Antártida e tudo parecia mais frio; terrivelmente frio, porque a Elisa estava ‘em  transe’ e  nem sentia mais a mão do Pedro, porque a mão dele, sempre tão quentinha, também estava fria, fria.
(Crianças não deveriam – nunca – passar por coisas como essas; essas situações de desamparo e dor que nem adultos suportam bem; aliás, suportar ‘bem’ as dores cotidianas, quem há de...?)
E então, mãe e filho, se sentaram ali no piso mesmo, no branco (sim, é mesmo branco) e também gelado, piso da sala, e foram jogando para lá os restos da confraternização de minutos antes – e dos abraços e desejos de ‘felizanonovo e etc.” – e choraram...
A Elisa chorou como criança, ao lado do Pedro que, não podendo ser criança naquela hora e não conseguindo fantasiar e sumir pelos ares cinzentos daquele dia que se tornara, em segundos, tão tenebroso; apenas ia sentindo a falta do homem que ele chamava de pai, assim, aos poucos, e os olhos dele pareciam maiores ainda e mais tristes ainda, assim como devem ser os olhos daqueles homens que, apesar de todo o esforço, ficaram pelos descaminhos da Antártida e do Alasca, soterrados por camadas absurdas de neve e deles nunca mais se ouviu falar.
Assim também o desamparo da Elisa e do seu filho, Pedro.

A Elisa foi casada durante quatro anos e meio com um homem segundo ela, ‘maravilhoso, perfeito, bom em tudo – tudo mesmo”, ela diz, refeita – e que se preocupava com ela, com seu cansaço, seu filho (que ele adotou como se, das suas entranhas, e o menino dormia abraçado a ele)suas contas; que era enfim “um príncipe encantado, aquele homem com o qual toda mulher sonha, ‘aquele’, sabe?!”. 
Esta história aconteceu há seis anos e hoje Elisa vive sozinha com o filho, na mesma casa pequenina e ela continua trabalhando como sempre trabalhou e já conseguiu comprar tudo novamente – ‘tudo melhor do que antes”, diz, orgulhosa.
Elisa fala que não pode odiar um homem que a fez tão feliz e foi tão perfeito, por que afinal, quantas mulheres há, que nunca poderão dizer ‘eu amei e fui amada de verdade?’.
(*A ilustração mais que adequada deste primeiro post é do professor André Monteiro dos Santos a quem agradeço a parceria e a generosidade).

4 comentários:

valuck disse...

Mesmo sabendo que há incontáveis Elisas esparsas e anônimas neste rincão, em nosso íntimo reside a esperança de que sejam apenas personagens de algum conto de ficção. A realidade, por certo, é menos compassiva. Sabe que nos forjamos na dura têmpera quando a falta de solidariedade nos obriga a seguir viagem, mesmo quando sentimos não ter mais forças para tal.
Empregos ruins são benfazejos quando deles nos livramos ... mas por ação de terceiros do que pela nossa, às vezes combalida vontade de lutar ...
Que a nova senda lhe traga o brilho da alma à tona, posto que se apequenava em tristeza em seu antigo labor ...
Abraço grande e solidário nessa nova luminosa via ...
Valério

valuck disse...

errata : (rs) ... ' mais '

Ana Vargas disse...

Muito obrigada Valério, muito obrigada mesmo.
Sua presença será sempre muito bem vinda nestas plagas rsrs

Um abraço e tenha uma ótima semana!

Ana Maria. disse...

Há um jeito de "contar as histórias" que sempre me encanta. Há poesia na vida de todo mundo e essa poesia quase sempre passa despercebida porque nem sempre é aquilo que se espera de uma poesia: que seja romântica, meiga... Muitos não a encontram na vida dura, na fumaça das grandes cidades, no dia a dia das pessoas "comuns". Mas a palavra que expressa o verdadeiro, essa é a mais difícil, e transformar o verdadeiro em poesia é tarefa para poucos.
O seu conto tem verdade mas também tem poesia - e está maravilhosamente escrito!
Virei a esta "fonte" todos os dias.