domingo, 21 de outubro de 2012

A locomotiva está emperrada, mas ainda assim, segue...


As postagens dessa semana foram feitas a partir de contribuições muito valiosas dos amigos: os dois primeiros textos abordam, de maneiras diversas, o consumismo exagerado dessa nossa sociedade. Sim, aposto que você, como eu,   também está cansado de saber que do jeito que as coisas vão, o planeta não vai aguentar - já não aguenta - e os sinais estão aí pra quem quiser ver. Aqui em São Paulo por ser a maior cidade brasileira e blábláblá, a gente vive no meio de contradições gritantes quando se pensa na questão 'consumo' e não sou hipócrita: se vivo por aqui e usufruo do que ela oferece, bem ou mal faço parte disso tudo, consumo e me deixo consumir pelas tantas facilidades que o capitalismo construiu e constrói (e destrói) a todo momento. 

Vista do alto da torre do Banespa - foto Ana Vargas
São Paulo e a faixa de poluição: a 'locomotiva' há muito emite sinais de cansaço.
(foto Ana Claudia) 











Mais precisamente em Osasco, por exemplo, não há (vejam bem: não há) mais espaço para tantos prédios, mas surge um novo a cada dia, numa cidade que é umas das piores do mundo em matéria de área verde por habitante.
 E é assim: a cidade já tem quase 1 milhão de moradores, não é mais vista como cidade dormitório, isso ficou lá atrás nos idos anos setenta e/ou começo dos oitenta; agora ela é vista quase como uma metrópole da grande São Paulo porque fez do comércio, o foco de sua economia (e dá-lhe shoppings centers! Numa mesma avenida são quatro, isso sem contar os hipermercados que ficam todos acoplados aos shoppings) já que as fábricas se foram para o interior do estado em busca de lugares de impostos mais baixos. 
O comércio local emprega milhares de pessoas das cidades próximas - Carapicuíba, Itapevi, Jandira, Barueri e etc. - que agora, não precisam ir até a capital para trabalhar e estudar. Então, o que se vê por aqui durante a semana, na avenida dos shoppings (que também agrega as faculdades locais) e também aos sábados, é um cenário assim: centenas de pessoas congestionadas em milhares de carros e ônibus e motos e etc.


Córrego João Alves - foto Ana Vargas
Dizem que há uns 50 anos, era possível pescar nesse córrego de Osasco e eu confirmo porque vi fotos e mais fotos dessa época. (foto Ana Claudia)

Não estudei economia a fundo, confesso que achava uma chatice - porque parecia tudo distante da realidade, como em geral, são mesmo as teorias acadêmicas - mas eu já sabia que essa ânsia por produzir e consumir  não ia acabar bem (isso lá na minha adolescência de rebelde sem causa).

Hoje eu me sinto sufocada (como devem se sentir a maioria dos moradores dessa cidade) no meio de tantos prédios e carros e shoppings e até pessoas, que como sabemos - afinal, somos da mesma matéria rs- quando estão assim, meio que amontoadas, ficam irritadas, grossas e a educação vai por água abaixo em segundos; e espero não estar por aqui daqui a alguns anos. 



Rua do bairro Quilômetro Dezoito, zona sul de Osasco, em 1962.
(foto: Museu Dimitri Sensaud de Lavaud)






Tenho até medo, pra falar a verdade, e isso não é algo infundado (visto que já fui assaltada e tive o 'prazer' de ver o quanto a polícia não está exatamente preocupada em proteger as pessoas, mas isso é claro, é outra história). Não há polícia (e a daqui anda matando e morrendo com a mesma ânsia, mas o governador falou que isso é 'normal'...então tá) que dê conta desse caldeirão de gente irritada, nervosa, engarrafada, consumista, em sua maioria, rasa e querendo apenas um canto pra chamar de seu (e dá lhe incorporações imobiliárias!) no meio do caos.
Para quê árvores ou praças? É melhor que todo mundo corra pro shopping e assista ao último sucesso de 'roliudi' : a alienação ainda é, a melhor alternativa.




Visão atual do mesmo bairro. (foto: Ana Claudia)

Mas como aqui não é espaço para alienações - quer dizer; talvez eu seja só uma alienada de outro tipo, porque pessoas precisam se vestir, morar, trabalhar, consumir e por aí afora; ninguém vai voltar a viver nos campos, ninguém vai voltar a cultivar seus alimentos como no século passado, não é? - eu hoje fico pelo menos, esperançosa, por saber que há economistas como o Marcus Eduardo - autor do artigo abaixo -  que pensa a economia pelo viés ambiental.
Isso não é animador e muito necessário, indispensável e básico?
No texto logo após, o colaborador oficial - Paulo Santos - reflete, de certa forma, também sobre consumismo mas por outro prisma. Vale a pena ler e depois fazer uma visita ao blog dele.
Pra terminar, preciso dizer que me sinto muito hipócrita (esse blog também é espaço para reflexão existencial, como não?) porque sou bem consumista, o que faço para me sentir 1% menos é reciclar o lixo daqui de casa.

No mais: vamos aos textos:


Quando o consumo consome o consumidor

Marcus Eduardo de Oliveira

Economista, professor e especialista em Política Internacional pela Universidad de La Habana – Cuba

Fonte: Adital

Desde seu surgimento pelas mãos de John Keynes, a macroeconomia tem como objetivo central o crescimento econômico à espera dos sufocantes padrões de consumo. De forma equivocada, muitos ainda acreditam que a abundância material "produz” bem-estar e permite melhorar substancialmente a vida das pessoas, cabendo à atividade econômica ser a protagonista principal desse filme cujo enredo é conhecido: manda quem pode (as forças de mercado) e obedece quem tem juízo (o bolso dos consumidores).
No afã em se produzir a qualquer preço para o atendimento das propagadas necessidades humanas -cada vez mais ilimitadas- a política econômica faz o jogo do mercado e, assim, contribui para transformar artificialmente desejos em necessidades. Para isso, põe a roda da economia para girar com mais força visando o alcance de taxas mais elevadas em termos de produção de bens e serviços; afinal, apoiada por ampla propaganda televisiva, o consumo precisa acontecer para o regozijo da classe produtora.
Mas, como nem tudo que reluz é ouro, nesse meandro produção-consumo não há como refutar uma assertiva: para crescer economicamente (produzir mais) é necessário usar o meio ambiente (fatores naturais) e, em decorrência desse "uso” crescer significa, grosso modo, "destruir”.
Assim, essa premissa pode ser reescrita de outra forma: Consome-se, logo, destrói-se. Produz-se mais, logo, agride-se mais.
Pois bem. Numa sociedade centrada no uso e na força do dinheiro como mecanismo potencializador de qualquer consumo temos a premissa de que "o consumo consome o consumidor”, como diz profeticamente Frei Betto em "A Mosca Azul”.
Diante disso, uma crucial e instigadora pergunta se apresenta como pertinente: como produzir mais para satisfazer desejos e necessidades de consumo se há visivelmente limites e pré-condições impostas pela natureza que impossibilitam esse atendimento em escala crescente?
Como existe o desejo em prontamente atender as necessidades mercadológicas impostas pelo apelo consumista, que por sinal são cada vez mais vorazes, primeiramente, em respeito ao bom senso, deve-se ter em conta aquilo que Clóvis Cavalcanti, especialista em economia ambiental, chama a atenção com bastante veemência: "mais economia implica menos ambiente”.
Isto posto, se é verossímil o fato de que o consumo consome o consumidor, a macroeconomia do consumo consome a natureza e, por esse "consumismo” desenfreado de recursos naturais (limitados, finitos) por parte da atividade econômico-produtiva, em breve, sem exageros retóricos, não haverá mais natureza, não haverá mais economia, mais mercado, produtos, consumidor, vida.
Em nome do "crescimento econômico” a destruição ambiental tem se apresentado com mais veemência nos últimos tempos, ainda que muitos insistam em fechar os olhos para tal questão. O certo é que mais produção material – com a atual matriz energética largamente usada – hoje em dia se traduz como sinônimo de mais emissões de gases de efeito estufa. É imprescindível conter o total dessas emissões, caso contrário, elevando-se a temperatura média do planeta teremos mais enchentes, derretimento de geleiras, mais secas.
Na esteira dessa análise, a economia tradicional beira a cegueira e incorre no crasso e estúpido erro ao confundir e não diferenciar crescimento (quantitativo) de desenvolvimento (qualitativo). De um lado, têm-se a receita tradicional da macroeconomia keynesiana: buscar o crescimento econômico para atenuar os desequilíbrios em relação à taxa de emprego e renda. Do outro, têm-se a questão ecológica que ressalta a não existência de recursos naturais em quantidades disponíveis para a ocorrência desse tal crescimento. O que não se coloca claramente é que crescimento econômico, como diz Ricardo Abramovay em "Muito Além da Economia Verde”, não é uma fórmula universal para se chegar ao bem-estar. Não se nega a importância do crescimento da economia; o que não se pode é fazer dele uma "finalidade”, pois o mesmo é apenas um "meio” para que a vida econômica prospere.
Desse embate teórico, algo tem de ficar bem esclarecido: uma maior produção econômica irá derrubar mais florestas, irá agredir o solo, usar mais água, o ar, a energia, teremos mais aumentos de emissões globais de gases de efeito estufa e teremos, sim, a vida colocada em risco pelo desequilíbrio climático decorrente disso tudo. Continuando com a falta de lucidez por parte da economia tradicional, a insistência em crescer economicamente além dos limites significa ainda aumentar o intercâmbio global de produtos, base essa do atual e avassalador modelo de globalização que recomenda, na ponta final, que a "receita para o sucesso” é ter sempre a geladeira repleta de produtos, de preferência importados. Ora, é simplesmente insano fazer com que um ketchup, por exemplo, vindo dos Estados Unidos "viaje”, às vezes, mais de 10 mil quilômetros para chegar ao mercado brasileiro quando poderia ser produzido domesticamente e "viajar” menos de 1.000 km para chegar às mesas dos brasileiros.
No entanto, para esse modelo de globalização que corre às soltas atestando que o produto importado é a característica mais visível da modernidade, pouca relevância tem o gasto energético intenso envolvido nessa "viagem” de fora para cá do ketchup. Pouco importa se isso é altamente agressivo sobre o meio ambiente e potencialmente gerador de CO2.
Nessa mesma linha de raciocínio, vejamos outro exemplo de como o consumo consome o consumidor e junto a isso a economia consome a natureza pondo a estabilidade climática à beira do precipício: a fruta nectarina produzida em Badajoz, na Espanha, "viaja” quase 400 quilômetros de caminhão queimando combustível até chegar a Portugal, no Porto de Lisboa. De lá vem ao Brasil, chegando ao Porto de Santos vinte dias depois. Alguém consegue imaginar o quanto foi gasto em termos energéticos nesse processo? Isso é inadmissível numa sociedade que já consome em energia e recursos o equivalente a um planeta e 1/3.
Ora, acatar esse modelo de consumo desenfreado (que não passa de um parâmetro falso de bem-estar) "patrocinado” pela macroeconomia da destruição da base natural e "propagandeado” por uma estrutura midiática que movimenta bilhões de dólares e se legitima por gordos lucros é continuar jogando terra sobre a capacidade de se obter desenvolvimento sustentável, pois isso está longe de melhorar a qualidade de vida das pessoas. Ao contrário: isso apenas reforça a ideia mercadológica (e sabemos que os mercados nunca promoveram bem-estar) e potencializa o triste fato do consumo consumir o consumidor possibilitando a chegada mais rápida da era do caos em termos de qualidade de vida relacionada aos serviços ecossistêmicos.


Tempos idos 



Houve época em que se levava as coisas mais a sério. Saudosismo? Nostalgia? Nada disso! Uma constatação de que nesse mundo que se liquefaz dia após dia, há cada vez menos espaço para o humano. A ditadura das marcas, da moda, do espetáculo, do consumo ... O que vai restar de nossa civilização tão técnica e tão pobre? Vivemos num mundo onde máquinas e informática tornam as coisas mais rápidas, mas não melhores. Os relacionamentos se enfraquecem, o diálogo desaparece ... No futuro seremos conhecidos como os seres da Idade do Plástico. 

Seres carregados e dependentes de quinquilharias eletrônicas, e ocos, vazios, cadáveres que respiram; seres sem metas, propósitos, ... a certeza de nossa finitude já nos fez usar melhor nosso tempo e recursos. Hoje as pessoas fogem da consciência dessa finitude, preenchendo seu lugar com coisas e comportamentos bizarros. Uma boa parte perdeu-se de si mesma e não parece interessada em se reencontrar.
Tudo indica que uma nova civilização vem por aí, passando por cima dessa modernosa vida vazia que nos é imposta por um modelo econômico diabólico, que fez da sociedade um subproduto da economia.


Para ler mais acesse: http://animalsapiens.blogs.sapo.pt/


Do alto da Serra da Piedade: foto Danielli Vargas
Será que o passarinho no alto da Serra da Piedade, em Belo Horizonte, está refletindo sobre o quanto  esse negócio de consumismo e destruição ambiental e etc., fez mal pra humanidade? Será que ele tem nostalgia dos 'tempos idos'? Será? (foto Danielli Vargas)


Seção Gerais de Minas


Gente, e agora, o segundo capítulo da série Minas por outros ângulos: outro artigo do Paulo sobre pontos da história mineira não muito (ou nada)conhecidos.  

Aproveito para informar o seguinte: criei no site de imagens Flickr um perfil para inserir imagens de Minas, a proposta é inserir principalmente, mas não somente, fotos de lugares, pessoas, festas populares e etc. mas tudo a partir de uma visão 'não turística'. 

Mas, o que seria isso? Seria assim: vale uma foto do sol se pondo entre os morros e palmeiras todo alaranjado e belo, mas vale bem mais a foto de uma cidadezinha chamada Morro do Ferro e/ou Campos Altos e/ou Januária e etc. 

Queria muito que se transformasse num grandioso banco de imagens de toda Minas, sobretudo, aquela das inúmeras cidades que sequer constam no mapa ou daquelas que a gente (geralmente) nunca ouviu falar. Fotos de morro, árvore, açude, pedra, cachoeira, crianças, velhos e etc. e etc.

Então, você está desde já convidadíssimo a enviar fotos e a divulgar essa iniciativa para todos os seus amigos: mineiros que moram em Minas, que moram em São Paulo, no Rio, na Bahia ou em Quixeramobim.

Caso queira ver o que tenho colocado lá - quase nada ainda porque, por enquanto, a coisa está só começando - acesse 
http://www.flickr.com/ e procure a galeria dessa que vos escreve: geraesdeminas é o nome, muito 'criativo' por sinal, que eu 
escolhi, uma das fotos que estão lá, é essa aí: retrato do cerrado mineiro:







Agora chega! 
Segue o ótimo artigo do Paulo.


Resistência negra:
Um reino africano no Centro de Minas? - Parte 2
No início do século XVIII, surgiu mais ou menos na região centro-oeste da então Capitania de Minas Gerais, uma confederação de quilombos que, no conjunto, passou a ser conhecida como Quilombo do Rei Ambrósio, ou do Campo Grande.

Por Paulo Roberto Santos*
De Divinópolis-MG
06/09/2012


Por volta de 1760, com o fim da confederação dos quilombos espalhados do rio das Mortes ao Abaeté, e de Ibiá a Itaguara, presumíveis indicadores dos limites do quilombo do Rei Ambrósio (ou do Campo Grande), houve avanços de bandeirantes (grupos paramilitares ou milícias, acompanhadas por pessoas de todo o tipo, de aventureiros a saqueadores), em direção ao oeste de Minas.

Já havia pequenos povoados pela região, formados anteriormente pelos fugitivos da guerra dos emboabas, ocorrida algumas décadas antes, em 1708-09, com a derrota, fuga ou morte dos paulistas. Esse episódio deu causa à criação da Capitania de Minas Gerais, fazendo os paulistas se voltarem mais para regiões interioranas e em direção ao atual Paraguai e Mato Grosso.

Enquanto isso, nas Gerais, o ouro escasseava rapidamente. A Coroa portuguesa precisava dos recursos das colônias para quitar suas dívidas para com a Inglaterra, e para os manufaturados que até então - já com a nascente revolução industrial -, ainda não produzia.


Povoado de Catumba, em Itaúna, ainda guarda resquícios do tempo dos escravos.
(Foto: Charles Ishimoto)


É nesse contexto de empobrecimento rápido e generalizado que negros forros, fugitivos, remanescentes de etnias nativas, brancos pobres ou ricos naturais, vão se defrontar com um episódio de truculência e arbítrio que ficou conhecido como a Conjuração Mineira. A conspiração que envolveu membros de todas as classes, clérigos inclusive e gente da região principalmente, mas também alguns portugueses, que tinha como propósito principal a libertação da Capitania de Minas do governo português.

Havia o apoio de paulistas e fluminenses, mas, principalmente, de baianos e pernambucanos. Os governos dos Estados Unidos, França e Inglaterra prometeram apoio e reconhecimento à nova nação. Se não houvesse a delação e prisão dos principais condutores do movimento, havendo sucesso, certamente, seria o estopim para as lutas de emancipação das demais Capitanias.

É preciso citar que, ao longo do século XVIII, dezenas de milhares de negros africanos foram trazidos para a Capitania de Minas Gerais, para o trabalho nas minas e em serviços diversos. Não se deve pensar nos negros africanos, principalmente nos sudaneses, como povos atrasados. Existiam reinos prósperos, que faziam comércio com a Índia e entre si. Os sudaneses, em sua maioria, falavam e escreviam em árabe, e trazidos ao Brasil eram, muitas vezes, mais alfabetizados que os seus senhores.

Conhecedores da metalurgia, da pecuária, de plantas medicinais, de práticas de cura ancestrais, das artes da guerra e da paz, quando era o caso, os africanos eram superiores aos indígenas, que ainda viviam na idade da pedra polida, da cerâmica, da caça, pesca e coleta. Por essa razão foram substituídos na mão de obra ao longo dos séculos.






Entre os vestígios deixados pelos escravos estão valas cavadas e também muros feitos de pedras da região.(Foto Charles Ishimoto)

Redutos remanescentes

Da confederação de quilombos que constituiu o reino do Rei Ambrósio, restou uma quantidade imensa de redutos remanescentes que lutam, até hoje, pelo reconhecimento de suas terras, cobiçadas por fazendeiros que ainda os veem como mão de obra barata, quando não ainda como escravos. Aos poucos, o atual Governo Federal vem resolvendo essas demandas em favor dos quilombolas, não sem a resistência dos latifundiários.

O quilombo se foi, mas sua influência ficou até hoje. A culinária mineira cheira a improviso. Além disso, o uso do fubá de milho, da farinha de mandioca e do polvilho, deu novos pratos à cultura nacional. Quem nunca ouviu falar, ou já experimentou, o pão de queijo, resultado da escassez de trigo naqueles tempos idos e a junção do queijo mineiro, feito com leite cru?

No linguajar, em Minas como em todo o Brasil, ficamos com os adjetivos carinhosos aprendidos com as negras que cuidavam e davam seu próprio leite aos filhos dos senhores, benzinho, amorzinho… E tantas outras expressões de carinho hoje tão comuns.

Com a chegada ao Brasil da família real portuguesa, em 1808, fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte, o país passa a ter o português como língua obrigatória, fazendo com que o nhengatu (fala boa, em tupi) fosse aos poucos abandonado. Essa língua, criada pela inventividade dos padres jesuítas do século XVI, numa mistura de tupi com português, foi a língua comum por mais de dois séculos. Foi também usada pelos bandeirantes - em sua maioria, mameluca, e não branca, como divulgado por décadas na historiografia oficial.

Um pouco desse linguajar arcaico reaparece nas obras do escritor mineiro Guimarães Rosa, em todas as suas obras, mas particularmente no “Grande Sertão: Veredas” e em “Sagarana”. Um português - ou talvez seja melhor dizer, mineirês -, que dificilmente será entendido pelas gerações futuras, perdendo-se, assim, uma das maiores belezas literárias do país.

Controvérsias, lacunas, dúvidas e incertezas à parte, eis uma página de grande interesse da história de Minas Gerais, e que vem sendo, lentamente, reconstituída por profissionais e amadores.


* Paulo Roberto Santos é professor e sociólogo, seu blog é http://animalsapiens.blogs.sapo.pt/.
Artigo escrito originalmente para o Via Fanzine: www.viafanzine.jor.br 










Um comentário:

Ana Maria. disse...

É muito bom ter esse espaço. Há muita coisa "entre os céus e a terra" mineira que parece ter se perdido. Há tantas histórias que, como bem disse o Prof. Paulo Santos, não são transmitidas ao povo. Por quê? Há muitas perguntas que gostaria de fazer, mas, sinceramente, parece não ter aonde buscar as respostas. As histórias vão se perdendo, o conhecimento também... Além das boas aulas de História, que saudade das aulas de Educação Moral e Cívica!