domingo, 21 de outubro de 2012

A locomotiva está emperrada, mas ainda assim, segue...


As postagens dessa semana foram feitas a partir de contribuições muito valiosas dos amigos: os dois primeiros textos abordam, de maneiras diversas, o consumismo exagerado dessa nossa sociedade. Sim, aposto que você, como eu,   também está cansado de saber que do jeito que as coisas vão, o planeta não vai aguentar - já não aguenta - e os sinais estão aí pra quem quiser ver. Aqui em São Paulo por ser a maior cidade brasileira e blábláblá, a gente vive no meio de contradições gritantes quando se pensa na questão 'consumo' e não sou hipócrita: se vivo por aqui e usufruo do que ela oferece, bem ou mal faço parte disso tudo, consumo e me deixo consumir pelas tantas facilidades que o capitalismo construiu e constrói (e destrói) a todo momento. 

Vista do alto da torre do Banespa - foto Ana Vargas
São Paulo e a faixa de poluição: a 'locomotiva' há muito emite sinais de cansaço.
(foto Ana Claudia) 











Mais precisamente em Osasco, por exemplo, não há (vejam bem: não há) mais espaço para tantos prédios, mas surge um novo a cada dia, numa cidade que é umas das piores do mundo em matéria de área verde por habitante.
 E é assim: a cidade já tem quase 1 milhão de moradores, não é mais vista como cidade dormitório, isso ficou lá atrás nos idos anos setenta e/ou começo dos oitenta; agora ela é vista quase como uma metrópole da grande São Paulo porque fez do comércio, o foco de sua economia (e dá-lhe shoppings centers! Numa mesma avenida são quatro, isso sem contar os hipermercados que ficam todos acoplados aos shoppings) já que as fábricas se foram para o interior do estado em busca de lugares de impostos mais baixos. 
O comércio local emprega milhares de pessoas das cidades próximas - Carapicuíba, Itapevi, Jandira, Barueri e etc. - que agora, não precisam ir até a capital para trabalhar e estudar. Então, o que se vê por aqui durante a semana, na avenida dos shoppings (que também agrega as faculdades locais) e também aos sábados, é um cenário assim: centenas de pessoas congestionadas em milhares de carros e ônibus e motos e etc.


Córrego João Alves - foto Ana Vargas
Dizem que há uns 50 anos, era possível pescar nesse córrego de Osasco e eu confirmo porque vi fotos e mais fotos dessa época. (foto Ana Claudia)

Não estudei economia a fundo, confesso que achava uma chatice - porque parecia tudo distante da realidade, como em geral, são mesmo as teorias acadêmicas - mas eu já sabia que essa ânsia por produzir e consumir  não ia acabar bem (isso lá na minha adolescência de rebelde sem causa).

Hoje eu me sinto sufocada (como devem se sentir a maioria dos moradores dessa cidade) no meio de tantos prédios e carros e shoppings e até pessoas, que como sabemos - afinal, somos da mesma matéria rs- quando estão assim, meio que amontoadas, ficam irritadas, grossas e a educação vai por água abaixo em segundos; e espero não estar por aqui daqui a alguns anos. 



Rua do bairro Quilômetro Dezoito, zona sul de Osasco, em 1962.
(foto: Museu Dimitri Sensaud de Lavaud)






Tenho até medo, pra falar a verdade, e isso não é algo infundado (visto que já fui assaltada e tive o 'prazer' de ver o quanto a polícia não está exatamente preocupada em proteger as pessoas, mas isso é claro, é outra história). Não há polícia (e a daqui anda matando e morrendo com a mesma ânsia, mas o governador falou que isso é 'normal'...então tá) que dê conta desse caldeirão de gente irritada, nervosa, engarrafada, consumista, em sua maioria, rasa e querendo apenas um canto pra chamar de seu (e dá lhe incorporações imobiliárias!) no meio do caos.
Para quê árvores ou praças? É melhor que todo mundo corra pro shopping e assista ao último sucesso de 'roliudi' : a alienação ainda é, a melhor alternativa.




Visão atual do mesmo bairro. (foto: Ana Claudia)

Mas como aqui não é espaço para alienações - quer dizer; talvez eu seja só uma alienada de outro tipo, porque pessoas precisam se vestir, morar, trabalhar, consumir e por aí afora; ninguém vai voltar a viver nos campos, ninguém vai voltar a cultivar seus alimentos como no século passado, não é? - eu hoje fico pelo menos, esperançosa, por saber que há economistas como o Marcus Eduardo - autor do artigo abaixo -  que pensa a economia pelo viés ambiental.
Isso não é animador e muito necessário, indispensável e básico?
No texto logo após, o colaborador oficial - Paulo Santos - reflete, de certa forma, também sobre consumismo mas por outro prisma. Vale a pena ler e depois fazer uma visita ao blog dele.
Pra terminar, preciso dizer que me sinto muito hipócrita (esse blog também é espaço para reflexão existencial, como não?) porque sou bem consumista, o que faço para me sentir 1% menos é reciclar o lixo daqui de casa.

No mais: vamos aos textos:


Quando o consumo consome o consumidor

Marcus Eduardo de Oliveira

Economista, professor e especialista em Política Internacional pela Universidad de La Habana – Cuba

Fonte: Adital

Desde seu surgimento pelas mãos de John Keynes, a macroeconomia tem como objetivo central o crescimento econômico à espera dos sufocantes padrões de consumo. De forma equivocada, muitos ainda acreditam que a abundância material "produz” bem-estar e permite melhorar substancialmente a vida das pessoas, cabendo à atividade econômica ser a protagonista principal desse filme cujo enredo é conhecido: manda quem pode (as forças de mercado) e obedece quem tem juízo (o bolso dos consumidores).
No afã em se produzir a qualquer preço para o atendimento das propagadas necessidades humanas -cada vez mais ilimitadas- a política econômica faz o jogo do mercado e, assim, contribui para transformar artificialmente desejos em necessidades. Para isso, põe a roda da economia para girar com mais força visando o alcance de taxas mais elevadas em termos de produção de bens e serviços; afinal, apoiada por ampla propaganda televisiva, o consumo precisa acontecer para o regozijo da classe produtora.
Mas, como nem tudo que reluz é ouro, nesse meandro produção-consumo não há como refutar uma assertiva: para crescer economicamente (produzir mais) é necessário usar o meio ambiente (fatores naturais) e, em decorrência desse "uso” crescer significa, grosso modo, "destruir”.
Assim, essa premissa pode ser reescrita de outra forma: Consome-se, logo, destrói-se. Produz-se mais, logo, agride-se mais.
Pois bem. Numa sociedade centrada no uso e na força do dinheiro como mecanismo potencializador de qualquer consumo temos a premissa de que "o consumo consome o consumidor”, como diz profeticamente Frei Betto em "A Mosca Azul”.
Diante disso, uma crucial e instigadora pergunta se apresenta como pertinente: como produzir mais para satisfazer desejos e necessidades de consumo se há visivelmente limites e pré-condições impostas pela natureza que impossibilitam esse atendimento em escala crescente?
Como existe o desejo em prontamente atender as necessidades mercadológicas impostas pelo apelo consumista, que por sinal são cada vez mais vorazes, primeiramente, em respeito ao bom senso, deve-se ter em conta aquilo que Clóvis Cavalcanti, especialista em economia ambiental, chama a atenção com bastante veemência: "mais economia implica menos ambiente”.
Isto posto, se é verossímil o fato de que o consumo consome o consumidor, a macroeconomia do consumo consome a natureza e, por esse "consumismo” desenfreado de recursos naturais (limitados, finitos) por parte da atividade econômico-produtiva, em breve, sem exageros retóricos, não haverá mais natureza, não haverá mais economia, mais mercado, produtos, consumidor, vida.
Em nome do "crescimento econômico” a destruição ambiental tem se apresentado com mais veemência nos últimos tempos, ainda que muitos insistam em fechar os olhos para tal questão. O certo é que mais produção material – com a atual matriz energética largamente usada – hoje em dia se traduz como sinônimo de mais emissões de gases de efeito estufa. É imprescindível conter o total dessas emissões, caso contrário, elevando-se a temperatura média do planeta teremos mais enchentes, derretimento de geleiras, mais secas.
Na esteira dessa análise, a economia tradicional beira a cegueira e incorre no crasso e estúpido erro ao confundir e não diferenciar crescimento (quantitativo) de desenvolvimento (qualitativo). De um lado, têm-se a receita tradicional da macroeconomia keynesiana: buscar o crescimento econômico para atenuar os desequilíbrios em relação à taxa de emprego e renda. Do outro, têm-se a questão ecológica que ressalta a não existência de recursos naturais em quantidades disponíveis para a ocorrência desse tal crescimento. O que não se coloca claramente é que crescimento econômico, como diz Ricardo Abramovay em "Muito Além da Economia Verde”, não é uma fórmula universal para se chegar ao bem-estar. Não se nega a importância do crescimento da economia; o que não se pode é fazer dele uma "finalidade”, pois o mesmo é apenas um "meio” para que a vida econômica prospere.
Desse embate teórico, algo tem de ficar bem esclarecido: uma maior produção econômica irá derrubar mais florestas, irá agredir o solo, usar mais água, o ar, a energia, teremos mais aumentos de emissões globais de gases de efeito estufa e teremos, sim, a vida colocada em risco pelo desequilíbrio climático decorrente disso tudo. Continuando com a falta de lucidez por parte da economia tradicional, a insistência em crescer economicamente além dos limites significa ainda aumentar o intercâmbio global de produtos, base essa do atual e avassalador modelo de globalização que recomenda, na ponta final, que a "receita para o sucesso” é ter sempre a geladeira repleta de produtos, de preferência importados. Ora, é simplesmente insano fazer com que um ketchup, por exemplo, vindo dos Estados Unidos "viaje”, às vezes, mais de 10 mil quilômetros para chegar ao mercado brasileiro quando poderia ser produzido domesticamente e "viajar” menos de 1.000 km para chegar às mesas dos brasileiros.
No entanto, para esse modelo de globalização que corre às soltas atestando que o produto importado é a característica mais visível da modernidade, pouca relevância tem o gasto energético intenso envolvido nessa "viagem” de fora para cá do ketchup. Pouco importa se isso é altamente agressivo sobre o meio ambiente e potencialmente gerador de CO2.
Nessa mesma linha de raciocínio, vejamos outro exemplo de como o consumo consome o consumidor e junto a isso a economia consome a natureza pondo a estabilidade climática à beira do precipício: a fruta nectarina produzida em Badajoz, na Espanha, "viaja” quase 400 quilômetros de caminhão queimando combustível até chegar a Portugal, no Porto de Lisboa. De lá vem ao Brasil, chegando ao Porto de Santos vinte dias depois. Alguém consegue imaginar o quanto foi gasto em termos energéticos nesse processo? Isso é inadmissível numa sociedade que já consome em energia e recursos o equivalente a um planeta e 1/3.
Ora, acatar esse modelo de consumo desenfreado (que não passa de um parâmetro falso de bem-estar) "patrocinado” pela macroeconomia da destruição da base natural e "propagandeado” por uma estrutura midiática que movimenta bilhões de dólares e se legitima por gordos lucros é continuar jogando terra sobre a capacidade de se obter desenvolvimento sustentável, pois isso está longe de melhorar a qualidade de vida das pessoas. Ao contrário: isso apenas reforça a ideia mercadológica (e sabemos que os mercados nunca promoveram bem-estar) e potencializa o triste fato do consumo consumir o consumidor possibilitando a chegada mais rápida da era do caos em termos de qualidade de vida relacionada aos serviços ecossistêmicos.


Tempos idos 



Houve época em que se levava as coisas mais a sério. Saudosismo? Nostalgia? Nada disso! Uma constatação de que nesse mundo que se liquefaz dia após dia, há cada vez menos espaço para o humano. A ditadura das marcas, da moda, do espetáculo, do consumo ... O que vai restar de nossa civilização tão técnica e tão pobre? Vivemos num mundo onde máquinas e informática tornam as coisas mais rápidas, mas não melhores. Os relacionamentos se enfraquecem, o diálogo desaparece ... No futuro seremos conhecidos como os seres da Idade do Plástico. 

Seres carregados e dependentes de quinquilharias eletrônicas, e ocos, vazios, cadáveres que respiram; seres sem metas, propósitos, ... a certeza de nossa finitude já nos fez usar melhor nosso tempo e recursos. Hoje as pessoas fogem da consciência dessa finitude, preenchendo seu lugar com coisas e comportamentos bizarros. Uma boa parte perdeu-se de si mesma e não parece interessada em se reencontrar.
Tudo indica que uma nova civilização vem por aí, passando por cima dessa modernosa vida vazia que nos é imposta por um modelo econômico diabólico, que fez da sociedade um subproduto da economia.


Para ler mais acesse: http://animalsapiens.blogs.sapo.pt/


Do alto da Serra da Piedade: foto Danielli Vargas
Será que o passarinho no alto da Serra da Piedade, em Belo Horizonte, está refletindo sobre o quanto  esse negócio de consumismo e destruição ambiental e etc., fez mal pra humanidade? Será que ele tem nostalgia dos 'tempos idos'? Será? (foto Danielli Vargas)


Seção Gerais de Minas


Gente, e agora, o segundo capítulo da série Minas por outros ângulos: outro artigo do Paulo sobre pontos da história mineira não muito (ou nada)conhecidos.  

Aproveito para informar o seguinte: criei no site de imagens Flickr um perfil para inserir imagens de Minas, a proposta é inserir principalmente, mas não somente, fotos de lugares, pessoas, festas populares e etc. mas tudo a partir de uma visão 'não turística'. 

Mas, o que seria isso? Seria assim: vale uma foto do sol se pondo entre os morros e palmeiras todo alaranjado e belo, mas vale bem mais a foto de uma cidadezinha chamada Morro do Ferro e/ou Campos Altos e/ou Januária e etc. 

Queria muito que se transformasse num grandioso banco de imagens de toda Minas, sobretudo, aquela das inúmeras cidades que sequer constam no mapa ou daquelas que a gente (geralmente) nunca ouviu falar. Fotos de morro, árvore, açude, pedra, cachoeira, crianças, velhos e etc. e etc.

Então, você está desde já convidadíssimo a enviar fotos e a divulgar essa iniciativa para todos os seus amigos: mineiros que moram em Minas, que moram em São Paulo, no Rio, na Bahia ou em Quixeramobim.

Caso queira ver o que tenho colocado lá - quase nada ainda porque, por enquanto, a coisa está só começando - acesse 
http://www.flickr.com/ e procure a galeria dessa que vos escreve: geraesdeminas é o nome, muito 'criativo' por sinal, que eu 
escolhi, uma das fotos que estão lá, é essa aí: retrato do cerrado mineiro:







Agora chega! 
Segue o ótimo artigo do Paulo.


Resistência negra:
Um reino africano no Centro de Minas? - Parte 2
No início do século XVIII, surgiu mais ou menos na região centro-oeste da então Capitania de Minas Gerais, uma confederação de quilombos que, no conjunto, passou a ser conhecida como Quilombo do Rei Ambrósio, ou do Campo Grande.

Por Paulo Roberto Santos*
De Divinópolis-MG
06/09/2012


Por volta de 1760, com o fim da confederação dos quilombos espalhados do rio das Mortes ao Abaeté, e de Ibiá a Itaguara, presumíveis indicadores dos limites do quilombo do Rei Ambrósio (ou do Campo Grande), houve avanços de bandeirantes (grupos paramilitares ou milícias, acompanhadas por pessoas de todo o tipo, de aventureiros a saqueadores), em direção ao oeste de Minas.

Já havia pequenos povoados pela região, formados anteriormente pelos fugitivos da guerra dos emboabas, ocorrida algumas décadas antes, em 1708-09, com a derrota, fuga ou morte dos paulistas. Esse episódio deu causa à criação da Capitania de Minas Gerais, fazendo os paulistas se voltarem mais para regiões interioranas e em direção ao atual Paraguai e Mato Grosso.

Enquanto isso, nas Gerais, o ouro escasseava rapidamente. A Coroa portuguesa precisava dos recursos das colônias para quitar suas dívidas para com a Inglaterra, e para os manufaturados que até então - já com a nascente revolução industrial -, ainda não produzia.


Povoado de Catumba, em Itaúna, ainda guarda resquícios do tempo dos escravos.
(Foto: Charles Ishimoto)


É nesse contexto de empobrecimento rápido e generalizado que negros forros, fugitivos, remanescentes de etnias nativas, brancos pobres ou ricos naturais, vão se defrontar com um episódio de truculência e arbítrio que ficou conhecido como a Conjuração Mineira. A conspiração que envolveu membros de todas as classes, clérigos inclusive e gente da região principalmente, mas também alguns portugueses, que tinha como propósito principal a libertação da Capitania de Minas do governo português.

Havia o apoio de paulistas e fluminenses, mas, principalmente, de baianos e pernambucanos. Os governos dos Estados Unidos, França e Inglaterra prometeram apoio e reconhecimento à nova nação. Se não houvesse a delação e prisão dos principais condutores do movimento, havendo sucesso, certamente, seria o estopim para as lutas de emancipação das demais Capitanias.

É preciso citar que, ao longo do século XVIII, dezenas de milhares de negros africanos foram trazidos para a Capitania de Minas Gerais, para o trabalho nas minas e em serviços diversos. Não se deve pensar nos negros africanos, principalmente nos sudaneses, como povos atrasados. Existiam reinos prósperos, que faziam comércio com a Índia e entre si. Os sudaneses, em sua maioria, falavam e escreviam em árabe, e trazidos ao Brasil eram, muitas vezes, mais alfabetizados que os seus senhores.

Conhecedores da metalurgia, da pecuária, de plantas medicinais, de práticas de cura ancestrais, das artes da guerra e da paz, quando era o caso, os africanos eram superiores aos indígenas, que ainda viviam na idade da pedra polida, da cerâmica, da caça, pesca e coleta. Por essa razão foram substituídos na mão de obra ao longo dos séculos.






Entre os vestígios deixados pelos escravos estão valas cavadas e também muros feitos de pedras da região.(Foto Charles Ishimoto)

Redutos remanescentes

Da confederação de quilombos que constituiu o reino do Rei Ambrósio, restou uma quantidade imensa de redutos remanescentes que lutam, até hoje, pelo reconhecimento de suas terras, cobiçadas por fazendeiros que ainda os veem como mão de obra barata, quando não ainda como escravos. Aos poucos, o atual Governo Federal vem resolvendo essas demandas em favor dos quilombolas, não sem a resistência dos latifundiários.

O quilombo se foi, mas sua influência ficou até hoje. A culinária mineira cheira a improviso. Além disso, o uso do fubá de milho, da farinha de mandioca e do polvilho, deu novos pratos à cultura nacional. Quem nunca ouviu falar, ou já experimentou, o pão de queijo, resultado da escassez de trigo naqueles tempos idos e a junção do queijo mineiro, feito com leite cru?

No linguajar, em Minas como em todo o Brasil, ficamos com os adjetivos carinhosos aprendidos com as negras que cuidavam e davam seu próprio leite aos filhos dos senhores, benzinho, amorzinho… E tantas outras expressões de carinho hoje tão comuns.

Com a chegada ao Brasil da família real portuguesa, em 1808, fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte, o país passa a ter o português como língua obrigatória, fazendo com que o nhengatu (fala boa, em tupi) fosse aos poucos abandonado. Essa língua, criada pela inventividade dos padres jesuítas do século XVI, numa mistura de tupi com português, foi a língua comum por mais de dois séculos. Foi também usada pelos bandeirantes - em sua maioria, mameluca, e não branca, como divulgado por décadas na historiografia oficial.

Um pouco desse linguajar arcaico reaparece nas obras do escritor mineiro Guimarães Rosa, em todas as suas obras, mas particularmente no “Grande Sertão: Veredas” e em “Sagarana”. Um português - ou talvez seja melhor dizer, mineirês -, que dificilmente será entendido pelas gerações futuras, perdendo-se, assim, uma das maiores belezas literárias do país.

Controvérsias, lacunas, dúvidas e incertezas à parte, eis uma página de grande interesse da história de Minas Gerais, e que vem sendo, lentamente, reconstituída por profissionais e amadores.


* Paulo Roberto Santos é professor e sociólogo, seu blog é http://animalsapiens.blogs.sapo.pt/.
Artigo escrito originalmente para o Via Fanzine: www.viafanzine.jor.br 










quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Seção “Geraes de Minas”


“Minas principia de dentro para fora e do céu para o chão...” (Guimarães Rosa no conto “Minha Gente’, do  livro “Sagarana”)


Foi assim: de tanto ler aqui e ali, bobagens sobre Minas Gerais, de tanto conversar com amigos sobre o que viria a ser as “Minas Gerais” – para além das chatíssimas propagandas turísticas, dos comerciais mostrando as mesmas imagens¹ (Ouro Preto, “Beagá”, montanhas, Inhotim, gente de chapéu de palha ou aquela falsa modernidade de prédios espelhados que se vê de Uberaba a Divinópolis), para muito além das mais chatíssimas ainda notas sociais que ainda existem nos jornalões mineiros² (fulano de sobrenome X que casou com sicrana de sobrenome Y; sicrana que voltou da Europa e abre um negócio no  bairro X; aquelas tentativas frustradas (felizmente) de fazer com que o jeito ‘mineiro’ se molde ao que Rio e São Paulo esperam (vocês pensam que isso é bobagem mas não é não!), para além, enfim, do que existe de Minas na  velha imprensa que pertence às famílias X e Y, aquelas que não tem nenhum interesse em mostrar as histórias e estórias de uma Minas que existe – e resiste – nas ruas empoeiradas, nos sotaques carregados, no jeito de viver, enfim, dessas pessoas que moram nos lugares mais distantes (ou não), que ainda exercem profissões que já se extinguiram; alguns, os mais velhos, aqueles que sequer leem jornais porque  na maioria das vezes, não puderam aprender a ler – quanta gente assim ainda há em Minas – e por aí afora. E, em meio a tudo isso, outra Minas há muito já deu o ar de sua (des?)graça: é aquela pós-moderna (um termo inadequado mas necessário), aquela que vivencia os efeitos da tal globalização e é formada por milhares de jovens que são filhos e netos da ‘geração das profissões em fase de extinção’ (os marceneiros – como meu pai – os alfaiates, as costureiras e quitandeiras...); são jovens que, apesar da (alardeada?) facilidade de se continuar os estudos e melhorar de vida  ainda não tem acesso (por razões variadas e específicas) a uma vida melhor do que a que tiveram seus pais e avós.  Muitos deles sonham em ir para os EUA ou para a Bélgica (agora parece ser o ‘país da vez’) para fazer faxina  ou o que quer que seja.³ Eu sempre me identifiquei muito com a história dos que não terão sua história contada em lugar nenhum: nunca me reconheci – nem a nenhum dos meus – quando lia (leio) o que a imprensa mineira publicava (e claro: continua publicando), mas para além das minhas muitas limitações teóricas para tratar de temas que poderiam ‘explicar’ porque as coisas em Minas são dessa forma (e agora me vem à cabeça a imagem do Aécio Neves cutucando a presidenta Dilma com aquelas bobagens que ele sabe dizer tão bem sobre ‘ser mineiro’, como se ele soubesse o que vem a ser isso...é irônico); nessa seção eu espero poder colocar textos, fotos, notícias  da ‘outra’ Minas Gerais, aquela que se parece mais com a que eu gosto e cresci admirando, aquela que é feita de uma simplicidade que não exclui a busca por outros modos de pensar (para além dos academicismos ou das visões superficiais), aquela que é feita por gente de todas as classes, gente que não faz nenhuma questão de se dizer dessa ou daquela família, desse ou daquele sobrenome e/ou partido político e por aí afora.
Para terminar: sua leitura, comentário e contribuição será muitíssimo bem vinda! Peço que perdoe a confusão do texto acima, com o tempo eu espero ir afinando as muitas ideias que gostaria de discutir aqui.

E, sem mais delongas,  para inaugurar a seção, convido vocês à leitura do artigo abaixo, do amigo Paulo Santos, sociólogo, mineiro de Santo Antônio do Monte e morador da modernosa Divinópolis, a maior cidade ali da região centro-oeste, lugar de muitas lojas com nomes em inglês e (felizmente) lugar também de gente boa, como o Paulo (e sua esposa e seus filhos), que gosta de refletir e escrever sobre o que se propõe aqui.

No mais, boa leitura, minha gente (mas antes, algumas explicações):

1  Nada contra essas imagens, é só cansaço mesmo de ver sempre as mesmas...falta de criatividade de quem faz essas propagandas, acho eu...

2  Sinceramente: quando vou para Minas e leio os jornais, fico pensando porque há tanto esforço – por parte dos editores – em manter aquela ‘aura’ de que Minas é um lugar especial; quase uma ilha de ‘gente do bem’, longe da corrupção e dos problemas que afetam Rio e SP (violência, desemprego...). Todo mundo sorri nas colunas sociais, agora, eu bem que queria saber qual o motivo para tantos sorrisos. Ah, sim: Minas é especial, mas não pelos motivos que (penso) eles devem achá-la especial...

3Por que ir para os EUA trabalhar como faxineiro é diferente de ir para o Rio ou para Brasília pra fazer o mesmo? (Nada contra faxineiros e pedreiros, por favor!) Ah, sim: dizem que pagam ‘bem’ mais lá, mas acho que a questão é mais de ‘status’: fazer faxina para  americanos e belgas deve ser mais ‘cool’...Perdoem a pobreza do meu ‘raciocínio’ é que não aguento topar com gente que se acha superior por que está nessa situação e como há disso em Minas...isso é triste.




Um reino africano no Centro de Minas? 
Parte 1)

No início do século XVIII, surgiu mais ou menos na região centro-oeste da então Capitania de Minas Gerais, uma confederação de quilombos que, no conjunto, passou a ser conhecida como Quilombo do Rei Ambrósio, ou do Campo Grande.


Heróis fora da história

Existem muitas lacunas e distorções na historiografia brasileira. Há excesso de heróis e escassez de povo, de gente simples, daqueles que participaram efetivamente da construção desse país, nem que seja como vítimas das atrocidades praticadas pelos eventuais e momentâneos donos do poder.

Só recentemente dois heróis foram acrescentados ao panteão brasileiro, para representar as três raças que compõem nosso povo. Além do branco Tiradentes, já temos o indígena da resistência guarani, Sepé Tiaraju, e o negro quilombola Zumbi de Palmares. Mas ainda falta muito para uma história menos incompleta.

No início do século XVIII, começou a surgir mais ou menos na região centro-oeste da então Capitania de Minas Gerais, uma confederação de quilombos que, no conjunto, passou a ser conhecida como Quilombo do Rei Ambrósio, ou do Campo Grande.

Seu perímetro exato é desconhecido, mas há indícios que ia do Rio das Mortes (perto de São João Del Rei), passando por onde hoje é Itaguara (às margens da BR-381, MG-SP), em direção a Abaeté, seguindo para Ibiá, Campo Belo e com sede mais duradoura onde hoje fica a cidade de Cristais.





O povoado de Catumba ainda guarda
restos de construções feitas pelos escravos. Seriam vestígios do  Quilombo do Rei Ambrósio?






Quilombo do Rei Ambrósio

Nesse complexo conjunto de aldeias confederadas viviam e conviviam os quilombolas (negros escravos fugidos), indígenas de várias etnias, brancos pobres, garimpeiros, comerciantes falidos, perseguidos de todos os tipos, formando uma população heterogênea e fixa de vários milhares de homens, mulheres, crianças, idosos. Faziam comércio com os tropeiros, garimpavam e trocavam o outro e pedras por armas e munições, sal, tecidos, charque e tudo o mais que precisassem, vivendo de forma autônoma por meio de agricultura de subsistência, com o eventual excedente sendo também objeto de troca.

Claro que a formação de um reino dessa natureza bem no centro de uma das principais fontes de riqueza da Corte portuguesa não interessava. Por isso, sucessivos ataques de tropas reinóis e de mercenários ocorreram, sendo vencidas pelos quilombolas. O interesse da Corte pelo sertão da Farinha Podre (atual Triângulo Mineiro) era grande, pelas possibilidades de riquezas, trânsito para regiões mais interioranas e controle das terras de Goiás. O Triângulo pertencia a Goiás naqueles tempos, e por isso havia uma motivação também de política expansionista, além de controle sobre os territórios das minas.

Para se chegar aos propósitos do governador da Capitania das Gerais e da Corte, era preciso eliminar o quilombo do Rei Ambrósio e anexar à região do Triângulo. Com isso, as batalhas ocorridas em regiões mais centrais, próximas a Formiga, Itapecerica (então Vila do Tamanduá), Campo Belo e Cristais, por exemplo, eram registradas pelo então responsável por essas notas, Coronel Inácio Correia Pamplona (um dos principais delatores da Conjuração Mineira), como tendo ocorrido mais além, perto da região do sertão da Farinha Podre.








Mapa no Arquivo Nacional mostra detalhes do Quilombo do Rei Ambrósio, no interior de Minas.





Abrangência da resistência negra

Os primeiros redutos quilombolas, formados a partir da Guerra dos Emboabas (1708-09), deram origem a essa grande confederação nos moldes dos reinos africanos, com um dos líderes, Ambrósio, tendo dado seu nome ao conjunto. O fim do quilombo se deu por volta de 1760, quando o bandeirante pitanguiense Bartolomeu Bueno do Prado, partiu com cerca de quatro mil homens bem armados (pelos padrões da época: armas de fogo e brancas, lanças, arco e flecha).

Num desses enfrentamentos quatro mil pares de orelhas negras foram postas em tonéis com salmoura, para serem entregues em Vila Rica, em troca do respectivo pagamento por cada morto. O quilombo resistiu até seu fim, seguido da dispersão, morte ou aprisionamento dos sobreviventes.

De qualquer forma, tais eventos não se perdem, mesmo quando são intencionalmente esquecidos pelos políticos, governantes ou historiadores. São muitas as lacunas, é verdade, pois os dados e informações são escassos. Boa parte dos documentos foi levada para São Paulo e para Portugal, ou simplesmente destruída, pelo que se sabe. Mas a tradição oral permaneceu e as histórias e estórias seguem seu curso, na visão de cada interpretador.




Restos de antigas construções podem ser vistos em Catumba.

Traços herdados de tempos trágicos

Muitos consideram o mineiro um tipo arredio e desconfiado, muitas vezes confundindo esse traço herdado de uma longa história de lutas, como timidez.

É provável que, na linha de raciocínio do psicólogo suíço Jung, esses séculos de lutas contra as arbitrariedades e mentiras oficiais tenham formado um arquétipo que o mineiro carrega consigo desde o berço.

Formou-se um tipo negociador e conciliador, que procura evitar o confronto, pois está disposto a ir até o fim se este acontecer. Resultado dos muitos reveses acontecidos no passado.

O século XVIII na Capitania das Gerais foi um século especialmente trágico. Começou com a Guerra dos Emboadas, seguida pela revolta de Felipe dos Santos, as campanhas militares contra quilombolas e indígenas, exterminando os goitacás, abaetés, candidés, tamaraícas, caiapós e tantas outras etnias, seja pela espada ou pela doença trazida pelos brancos.

O século terminou com a delação, prisão, tortura e morte ou exílio para os envolvidos com a Conjuração Mineira, também chamada Inconfidência Mineira (1788-89).

Somos desestimulados a conhecer nossa história e nosso passado; nossas origens. Um povo sem consciência histórica é um povo sem referências ou conhecimentos do por que somos como somos e onde, como e por que precisamos mudar em alguma coisa. Sem conhecimento do passado, não nos situamos no presente e assim, fica difícil planejar ou vislumbrar o futuro.

O reino africano que existiu no Centro-oeste de Minas Gerais no século XVIII - equivalente ou talvez maior que o de Palmares -, levanta uma série de questões: porque se tenta apagar a história? Por que se distorcem os acontecimentos? Por que se omitem informações valiosas para as gerações mais novas? A quem interessa manter o povo na ignorância de suas próprias origens?


Você pode ler outros textos do Paulo Santos no blog que ele edita, o "Animal Sapiens":

http://animalsapiens.blogs.sapo.pt/

Fonte original do artigo: Via Fanzine http://www.viafanzine.jor.br/principal.htm
Crédito das imagensFotos: Charles Aquino/Mapa:Arquivo Nacional/Itaúna em Décadas








segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Perfil: Ricardo Costa


  Conheça um pouco da obra do artista plástico e escultor mineiro, Ricardo Costa.


O centro-oeste mineiro é uma região de poucas árvores frondosas, vastos campos áridos, açudes, córregos e horizontes de cores que oscilam entre o verde musgo e o azul acinzentado. Também há por aqui muitos cupinzeiros e apesar da ausência das grandes árvores, há (ainda) muitas outras de porte médio, como os ipês, aquelas espécies aparentemente feiosas, de galhos retorcidos e cascas grossas como é, por exemplo,  o araticum,  árvore que produz um fruto saboroso e muito apreciado por estas bandas.
 É uma paisagem de savana – naturalmente seca – mas apesar ou justamente por isso, trata-se de uma região fértil em espécies rasteiras – gramíneas e arbustos -   e a biodiversidade destes campos é constantemente alardeada pelos biólogos e demais conhecedores da natureza.


O cerrado entre sonho e realidade

Sim e por aqui há ainda o verdete, um tipo de rocha rica em potássio, de belíssima coloração esverdeada – como o nome sugere -  que aparece, inesperadamente (e para alegria daqueles que apreciam esses verdadeiros ‘presentes’ da natureza)  sobre os rochedos e as muitas estradinhas que quase sempre, terminam em córregos e vales.
Assim, depois de caminhar pelos campos de árvores baixas e retorcidas, a gente pode encontrar depois de uma curva, atrás de um jacarandá (outra árvore comum por aqui) ou de um angico, uma estrada toda esverdeada e isso é algo que ilumina a paisagem, o dia e a vida, enfim.
Mas, como diria o poeta, ‘é preciso ter olhos de ver’ para apreciar a beleza seca, retorcida e esverdeada desses campos, dessas árvores e desses horizontes azuis acinzentados; e o escultor Ricardo Costa, um artista que nasceu  na região, sempre teve desde muito cedo,  estes raros ‘olhos de ver’.


Estradas empoeiradas e árvores retorcidas: a paisagem mais comum 



Pescarias imaginárias


Foi ainda na infância, quando morava numa fazenda, que o menino Ricardo começou a enxergar as belezas locais. Ele conta que desde sempre  gostava muito de desenhar vacas, bois e ‘tudo mais’ com carvão,  o material mais fácil de encontrar porque  aqui ainda há, nas casas da cidade e nas roças, muitos fogões de lenha, daí a presença farta de carvão.


Ricardo entre algumas de suas obras




Pode-se dizer, portanto,  que foi assim que tudo começou e por tudo entenda-se uma carreira que hoje é feita a partir do manuseio de outras matérias primas, digamos, mais refinadas, como a argila, a madeira e claro, o precioso e tão bonito, verdete.

Ricardo Costa – que, como todo bom mineiro, não é de falar muito; e como todo artista que se preze é um eterno curioso e observador nato – diversificou de tal forma sua arte que em seu ateliê, há desde oratórios e esculturas de tamanhos variados (são muitos santos, madonas,  escravos, medusas, gárgulas, profetas e até um soldado romano em tamanho natural) até telas nas quais retrata a paisagem tipicamente interiorana da cidade na qual vive ( Dores do Indaiá, cidade de menos de 13.000 habitantes, situada a 250 km de Belo Horizonte) e que se compõe por praças bucólicas, festas populares, estradas que se perdem entre arvorezinhas, as ruas simplórias e as pessoas que também fazem parte de um cenário tão tipicamente mineiro – o vendedor de picolé, por exemplo, que já deixou de existir,  está devidamente registrado em sua pintura – mas que adquire, expressa por sua visão única, uma imagem toda especial e memorável. 

E, por falar em visão única, Ricardo também faz uma releitura pós- moderna do ícone de Da Vinci, a Monalisa (veja foto): a ‘sua’, segura, graciosamente, uma Coca- Cola (e isso é bem perturbador como a arte deve ser).


A Monalisa pós-moderna...

Admirador confesso de Caravaggio – ele foi à exposição que esteve antes na Casa Fiat, em Belo Horizonte  – Michelangelo e Aleijadinho – Ricardo  nos oferece uma visão artística renovada, colorida e singular que se fragmenta em entalhes, corpos e rostos de santos; se dilui na pedra que compõe as faces de anjos e profetas; desliza nos pinceis que eternizam a geografia cotidiana e quase recatada da região – os morros, as pessoas e as praças – e por fim, representa, sobretudo,  de maneira  luminosa, os muitos modos de viver das gentes e porque não, das árvores, matas e córregos desse (tão bonito) cerrado mineiro.


Os santos e os profetas 

Quando perguntado o que seria  a ‘arte’ para ele – essa pergunta inútil e reconheço: clichê – ele diz que é como se estivesse em uma pescaria: é preciso silêncio e concentração quando está esculpindo ou pintando;  é preciso se ‘esquecer da vida’ para que seja possível retornar, depois, com resultado dessa ‘pescaria imaginária’.
E para nós que estamos na superfície, a impressão é exatamente esta:  é como se após um mergulho em águas esverdeadas e profundas,  ele retornasse com suas tantas e variadas preciosidades.

O artista na porta de seu ateliê e ao lado de outra escultura.


Você pode ver muitas delas visitando o site  www.ricardocosta.art.br/artista.php






quarta-feira, 27 de junho de 2012

As fotografias poéticas de Manuel Álvarez Bravo


 A realidade é mais real em preto e branco – Octavio Paz (comentando as obras de Bravo)

 Foi o mestre da fotografia Henry Cartier Bresson que disse “fotografar é colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração” e o mexicano Manuel Álvarez Bravo – contemporâneo de Bresson – tratou de seguir esse ‘conselho’ e, de modo tão apaixonado, que durante 70 anos, munido de sua câmera e com o olhar e o coração devidamente perfilados, registrou imagens de seu país natal – o México – carregadas de poesia e encantamento.




Figuras no castelo, década de 1920
   



Considerado a maior referência da moderna fotografia mexicana, as imagens de Álvarez Bravo mostram toda a riqueza social e cultural desse que é o país berço de civilizações milenares que foram fundamentais para o desenvolvimento da matemática, da medicina, arquitetura entre outras.

 
A cultura mexicana é fascinante – sou suspeita para falar porque para mim, o maior escritor do mundo (embora eu não acredite muito nisso de ‘maiores’ e ‘melhores’ e etc.) é o mexicano Juan Rulfo que com o seu livro Pedro Páramo e o Planalto em Chamas, escreveu um verdadeiro tratado sobre a vida rural mexicana (um dia falarei dele aqui no blog).

 





Com seu filho, década de 1950



Mas voltando ao Álvarez Bravo (e pedindo para que vocês perdoem os meus delírios) basicamente o que ele fez em seus 70 anos de trabalho fotográfico, foi mirar o visor de sua câmera para as mulheres, homens, velhos, crianças; enfim, para os muitos anônimos que cruzaram seu caminho ali, entre as décadas de 1920 e 1970.


Vale lembrar que gente como Frida Kahlo e  Diego Rivera – pintores -  André Breton – escritor - Serguei Eisenstein – cineasta – e claro, Juan Rulfo – que também era fotógrafo – também dão o ar da graça na exposição. E só por isso já valeria visitá-la.

A fotografia de Manuel Álvarez Bravo passeia por paisagens urbanas e rurais, montanhas e cidades, pelos quintais de casas simples nos quais mulheres estendem roupas em varais iluminados; revela jardins humildes,  trabalhadores, prostitutas em poses eróticas ou não; crianças que brincam pelas ruas celebrando a infância...

Tudo se revela de maneira sempre encantada, como se víssemos uma imagem sonhada e não real; mas é justamente por isso que certos matizes do cotidiano se revelam de forma intensa e (vejam só); real.

Penso que obras de arte não deixam de ser uma celebração da vida e de suas tantas belezas, dores e questionamentos e tudo isso está presente - com louvor - na obra desse grande fotógrafo.



 
Janela para os agaves, 1974-1976




A mostra de  Manuel Álvares Bravo – que morreu aos 100 anos de idade, em 2002 -  e foi produzida em parceria com a Associação Manuel Álvarez Bravo e com apoio do Museu de Arte Moderna e do Instituto Nacional de Belas Artes do México, fica em cartaz no Instituto Moreira Salles de São Paulo até 8 de julho.

Para saber mais acesse: http://ims.uol.com.br/


(Crédito das fotos: Manuel Álvarez Bravo © Colette Urbajtel/ Asociación Manuel Álvarez Bravo, a.c)

As cracolândias de Minas

Muito tem se falado sobre o avanço do crack para os interiores do Brasil. Especialistas afirmam que isso já era previsto dado ao rigor (muitas vezes questionável) com que o poder público das grandes cidades tem tratado essa questão. O caso da cidade de São Paulo é emblemático. 
Pois se nessa que é a mais desenvolvida cidade brasileira e que, dadas às suas  proporções, é também a que mais recebe verbas para fortalecer todo o aparato relacionado à segurança pública, a questão das drogas e, mais especificamente, do crack, se configura em equação dificílima de resolver -  aqui entram, por exemplo, discussões diversas ligadas à tão polêmica e pouco eficiente ‘guerra às drogas’ impetrada pelos EUA e o fato de que o debate sobre a liberação destas substâncias foi retomado - imagine essa verdadeira ‘bomba’ sendo acionada nas muitas cidades do interior do Brasil; cidades que já são abandonadas em muitas instâncias pelos seus próprios governantes?
Em Minas, por exemplo, estas numerosas cidades de nomes  poéticos – Dores do Indaiá; Divinópolis, Estrela do Indaiá, Nova Serrana e etc. – estão vivendo um paradoxo que caberia muito bem na ficção genial e bizarra de um escritor como Roberto Bolaño – quem melhor do que ele para fazer literatura a partir das mazelas latino-americanas e a droga é só uma delas - mas que aqui no viés da realidade real, cria situações limite, coloca todos contra a parede e quando digo ‘todos’ estou me referindo a comunidades que não estão, nem de longe, preparadas para lidar com uma droga como o  crack e claro; ao dito poder público que se já não funciona muito bem nos grandes centros, o que dirá então aqui, nos rincões do Brasil?
Em Divinópolis, por exemplo, a maior cidade da região centro- oeste mineira, segundo dados divulgados pela delegacia regional, 90% dos homicídios ocorridos na cidade entre janeiro e fevereiro deste ano tiveram relação direta com o tráfico de drogas. Alguns são casos escabrosos de filhos que matam pais ou que envolvem crianças de 10 anos que já estão inseridas no  tráfico.
Já em Dores do Indaiá, cidade de pouco mais de 11.000 habitantes situada a 255 km de Belo Horizonte, a população tem assistido estarrecida a vários casos de homicídios ligados ao tráfico e uso de drogas. Segundo fonte ligada a policia militar que não quis se identificar por razões óbvias, há dois anos não havia ocorrências ligadas ao crack, mas a partir de 2010, os casos  aumentaram assustadoramente. A maioria dos envolvidos tem entre 11 e 17 anos de idade e somente este ano já ocorreram na cidade três homicídios relacionados a essa droga. Vale ressaltar que em todas essas ocorrências os envolvidos – sejam eles usuários ou traficantes; sejam maiores ou menores de idade – mesmo quando presos em flagrante delito, são autuados, levados para a delegacia,   permanecem encarcerados no aguardo do julgamento, mas são, na maioria das vezes, soltos por não serem julgados dentro do prazo estabelecido pela lei. Quando há menores de idade envolvidos, ainda que haja atuação do Conselho Tutelar do município, os casos não têm o encaminhamento judicial solicitado e novamente os menores são devolvidos aos familiares. A cidade não possui nenhum abrigo ou instituição que oriente as famílias que são, geralmente, desestruturadas, e assim o problema tem sido solenemente ignorado.  A situação demonstra claramente o desinteresse dos chamados poderes públicos locais em oferecer uma solução que contenha o avanço do crack na região.  Como é natural nestes casos, o número de assaltos a mão armada e os furtos têm aumentando consideravelmente em todas estas cidades.
É claro que quando se pensa na falta de segurança pública das metrópoles brasileiras, nos inúmeros casos diariamente alardeados pela imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro, lembrar casos semelhantes que ocorrem em cidades do interior poderia soar, a princípio, como uma questão meramente comparativa, mas aqui novamente é importante ressaltar que justamente dadas às condições econômicas, sociais e culturais de tais cidades é que se trata de casos graves que requerem por isso, a atenção das autoridades responsáveis nas instâncias municipais, estaduais e federais.
O estado de Minas Gerais pode ser visto (infelizmente) como exemplo do quanto o aumento do tráfico e do uso de drogas está se tornando um problema de saúde pública, pois diariamente as comunidades do interior mineiro têm assistido estarrecidas a mortes de crianças, prisões de traficantes que migraram das capitais e estão, literalmente, construindo ali os seus cartéis, e o fazem com tranquilidade, pois não ficam presos e sequer são julgados.
Enquanto isso, as autoridades tomam medidas meramente paliativas ou maquiadoras da realidade social, os tais megaeventos muito comuns na região, se tornaram pontos de negociação dos traficantes-usuários e não apenas locais nos quais se consome a bebida alcoolica do patrocinador ou  as demais drogas ilícitas de modo geral.
Para concluir a pergunta que resta é: como mudar a abordagem deste problema de forma que seja possível amenizá-lo? Repressão e exclusão social dos usuários evidentemente não funcionam; o que fazer com o crime que se organiza em torno do tráfico de drogas e de armas?
Como se vê as montanhas mineiras estão encobrindo bem mais do que as belezas naturais do estado. Já se sabe que  há várias cracolândias em plena atividade espalhadas pelo Brasil afora e em Minas Gerais, nas cidades do centro-oeste,  elas estão funcionando a pleno vapor sob os olhos complacentes do poder público.
(Esse artigo foi escrito com a valiosa contribuição de Paulo Roberto Santos, sociólogo (UFMG), especialista em Política e Sociedade (PUC-MG) e professor de sociologia).

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Osasco: a pujante cidade dos sofás abandonados


Sofás velhos: o outro lado da pujança econômica...


 

Moro numa cidade pós industrial da grande São Paulo, um lugar quase sempre de céus acinzentados e paisagens que parecem em alguns trechos, uma mistura daquelas  vilas operárias inglesas – Manchester, pelo que vi em fotos– com outras mais de acordo com nossa realidade, como aquelas que vemos em imagens de alguns empoeirados bairros da Bolívia, Colômbia ou algo assim. O fato é que é quase impossível definir a paisagem de uma cidade como esta na qual vivo – Osasco, grande São Paulo – pois é um lugar que está e esteve desde a origem, no centro de tudo o que transformou a cidade de São Paulo, o próprio estado e até o Brasil, no que temos aí hoje (de bom, ruim e inexplicável).
 Entre as décadas de 1920 e 1950, Osasco tinha inúmeras fábricas, aquele foi o tempo da chegada de imigrantes que vinham de todo o país e de todo mundo para trabalhar nestas fábricas e para fazer a ‘locomotiva’ funcionar.  A cidade cresceu de forma rápida e desordenada, desgarrou-se da capital emancipando-se em 1962 e   a urgência em resolver os muitos problemas de acomodação para aqueles que chegavam, a tornou um verdadeiro ‘caldeirão’ sempre prestes a explodir.
E, neste caso, a metáfora não é tão exagerada quanto se pensa, pois algumas explosões de fato aconteceram: a cidade foi palco de inúmeras greves trabalhistas e também na década de 1960 esteve no centro das muitas  lutas que envolveram tanto operários quanto estudantes contra a ditadura militar (é que muitos destes operários eram também estudantes universitários e esse fato explica a ‘qualidade’ das lutas trabalhistas que foram travadas por aqui).
 Vários artistas representativos da geração que lutou contra a ditadura moravam e ainda moram em Osasco. Ainda há pelos muros da cidade, reminiscências daqueles tempos, mas as fábricas hoje são poucas e embora a cidade ostente com orgulho desnecessário o fato de ser a 10º mais rica do Brasil e o governo local faça ‘aquelas’ propagandas, o que há é a mesma centena de prédios envidraçados com nomes americanizados (certamente), uma paisagem que quando  vista de cima ou de longe, lembra modernidade e pujança mas que, quando vista de perto, representa apenas o lado mais visível da tal pós- modernidade: os antigos bairros operários vão desaparecendo rapidamente, as antigas  casas são demolidas sem nenhum pudor para que se construam os tais prédios envidraçados com nomes americanizados, os muitos e muitos shoppings e viadutos vão tomando conta de toda paisagem e assim por diante.
 Hoje já são quase 1 milhão de pessoas por aqui – é a 6º mais populosa do estado - e o índice de área verde por habitante é um dos menores do planeta – 0,9m² por habitante, quando o recomendado pela ONU é de 6m² . É claro que a falta de segurança pública e todos os demais problemas gerados por tanta pujança são crescentes também: altos índices de violência, congestionamentos monstro quase todos os dias, mas  o pior de todos os problemas é aquela velha conhecida nossa, a política desonesta que se aproveita de todos os ingredientes deste caldeirão (afinal, este material todo é para eles muito farto e proveitoso) para fazer com que qualquer necessidade – educação pública, segurança, limpeza urbana etc. – pareça um presente, uma oferta generosa.
Osasco é ou não é a cara de qualquer cidade que você já conhece, caro leitor?
E os políticos daqui, lembram algo a você?

E os sofás?

Pois é nessa paisagem urbana acinzentada perdida entre o que seria a mistura de uma vila operária inglesa decadente com uma latino-americana ainda mais decadente, lugar no qual aqueles que (des) governam a cidade tentam construir a qualquer custo algo parecido com o que deve ser Miami ou sei lá o quê, que vejo pelas ruas o resto de toda essa pujança, assim abandonada sob a forma de... sofás!
Aqui em Osasco – ou terra de Os, como muitos carinhosamente a chamam -  é muito comum encontrar sob as árvores, pelas calçadas e praças e ruas,  sofás gigantescos, aqueles que as lojas popularescas vendem em não sei quantas vezes; aqueles que são feitos do material mais vagabundo que existe – porque se tudo mais está mudando tão rápido, está sendo engolido às pressas pelas tantas necessidades pós-modernosas, os sofás também precisam seguir estas tendências, como não?! -  são, quando não servem mais, simplesmente jogados nas ruas e ficam ali, se decompondo diante dos olhos dos passantes, como monstrengos tenebrosos que a mim parecem representar acima de tudo,  a imagem de um tempo que tenta parecer próspero, mas que esconde nas suas entranhas o aspecto que melhor define este nosso começo de século: a impermanência e a indefinição das coisas.
E, por coisas entenda-se desde a paisagem mutante desta cidade na qual vivo com seus prédios envidraçados de nomes americanizados e periferias atulhadas que não param de inchar; até estes simples sofás que largados assim pelas ruas, parecem representar, com certa dignidade (sim!) a decadência orquestrada pelas urgentes (?) necessidades do crescimento econômico a todo e qualquer preço.
 (Para ilustrar o texto, meu amigo Ricardo Inforzato, irritado também com os sofás abandonados (eles são muitos e ‘nascem’ da noite para o dia), criou a ilustração que abre o texto).