segunda-feira, 19 de novembro de 2012

“Observadores”: um país (visto por dentro) em imagens




Ana Claudia Vargas


“Uma fotografia não vale mil palavras, mas vale mil perguntas.” 

Allan Sekula



Revelar um país por meio de imagens fotográficas feitas desde a década de 1930 até os dias atuais: esse é o mote da exposição “Observadores” que fica em cartaz no Sesi-SP até o dia 25 de novembro.
Dizer que é uma viagem pela Grã-Bretanha é um clichê, então eu prefiro dizer que é uma viagem ‘por dentro’ da Grã-Bretanha, por paisagens pouco mostradas, pessoas pouco lembradas, por variadas situações cotidianas que estão longe (felizmente) do que é mostrado em propagandas turísticas.

Shirley Baker - Manchester - 1965*


É partindo dessa visão pouco comum, portanto, que vamos conhecendo a Inglaterra através do rosto sofrido e resignado de pessoas que tiveram suas casas destruídas durante os bombardeios ocorridos entre 1939 e 1945, dos jovens que moravam no interior do país  durante as décadas de 1960 e 1970 e deixaram eternizadas expressões de alegria ou certa indiferença e alguma rebeldia.


Ida Kar - Um inglês 'típico'.*

As cinco crianças negras sentadas na calçada (serão da mesma família?) numa fotografia feita por Shirley Baker, em 1965, nos fazem lembrar aquele tempo da infância que todos nós vivemos: um tempo de despreocupada alegria (embora a carinha enfezada da caçula também nos lembre que nem tudo na infância são flores).



Humphrey Spencer - Washing Day*

Os lugares retratados na maioria das fotos não é nenhum desses que vemos quando se mostra a Inglaterra vitoriosa, pujante e/ou coberta daquele falso glamour dos lugares modernos ou muito iluminados.
Os fotógrafos da mostra – Paul Nash; Raymond Morre, Ian Berry, George Rodger, Nigel Henderson, entre muitos outros – preocuparam-se em mostrar imagens que suscitam perguntas (como bem lembra a citação do começo desse texto) e não que ofereçam respostas. É certo que eles parecem querer provocar a reflexão e o questionamento.

Derek Ridgers - Babs Soho - 1987*

Sobre isso é melhor citar um trecho do folheto para definir com mais precisão o tipo de fotografia presente na mostra que é chamada com justiça de “Uma antropologia de nós mesmos”: Vamos lá:

“ Foi somente na década de 1930(...) que a idéia de uma ‘fotografia moderna’ ganhou corpo. (...)Em um período de profunda divisão social e ideológica, com a depressão econômica e conflitos políticos internacionais levando o mundo mais uma vez em direção à guerra, a atenção estava voltada para as pessoas e  para a maneira como elas viviam. Revistas e jornais criaram uma nova demanda para as fotos e para as histórias ilustradas. Artistas, escritores e pensadores, particularmente os de esquerda, abraçaram temas sociais e um novo realismo, numa tentativa de compreender e retratar a sociedade britânica com nova objetividade e imparcialidade científica: para se engajarem em uma  ‘antropologia de nós mesmos’. Um debate entre o Realismo e o Surrealismo atravessou a década de  1930. Inúmeros fotógrafos, voltando suas lentes  para sujeitos sociais desconhecidos, percebiam a realidade como surreal, estranha. Como muitos descobriram, a verdade podia ser mais estranha que a ficção”.

Pois é partindo dessa premissa que estes fotógrafos adentram os subúrbios londrinos nos quais moram em humildes sobrados geminados, operários que possuem numerosos filhos; e passeiam por paisagens do interior do país mostrando piqueniques coletivos nos quais se junta uma diversidade de pessoas e culturas que parecem simbolizar - ainda e apesar de tudo – a esperança de que povos de diferentes raças e culturas vivam em paz.

Paul Trevor - Liverpool *

Proletários ou elegantes, simplórios ou sofisticados; com aquelas caras tipicamente inglesas de velhos senhores e senhoras que devem sim, tomar chá às cinco da tarde (ou não); jovens suburbanos com posturas rebeldes vestindo jaquetas de couro e com os cabelos raspados (essa, a imagem mais corriqueira quando se pensa em ‘juventude britânica’) ou moças  de rostos sonhadores e ares singelos – fotografadas por Daniel Meadows -  destoando do que se poderia esperar de mulheres inglesas do começo da década de 1970: tudo isso compõe um rico mosaico de imagens que nos deixam com o desejo de conhecer estes lugares e principalmente, aquelas pessoas, embora saibamos que hoje tudo está mudado (pessoas, lugares e os tempos nos quais se situavam).

Daniel Meadows - Jovens ingleses - 1974*

Destruindo mitos pré-fabricados e talvez, construindo outros; revelando paisagens sociais e humanas de um país para além do que nos acostumamos a ver quase sempre, a mostra “Observadores’ oferece a possibilidade de conhecer a Grã-Bretanha caminhando por trilhas e estradas pouco frequentadas, adentrando desde salas de casas pobres até as famigeradas salas de espera de órgãos públicos – essas são deprimentes em qualquer lugar, como se descobre -  passando por escritórios ou  quintais e clubes campestres nos quais os britânicos perdem a pose e se agarram felizes, conformados ou abertamente despudorados, à vida: é assim que essa mostra cumpre com louvor o seu (ou um dos) papel de exibir uma “antropologia fotográfica” da Grã-Bretanha.

Para terminar é importante dizer que a mostra “Observadores” faz parte de um projeto do professor de artes, João Kulcsár,  e que tudo começou na década de 1990, quando ele foi bolsista do British Council . A mostra é também apenas parte de outro projeto, mais amplo, que utiliza a fotografia como forma de criar nos jovens (e professores) a capacidade de analisar criticamente a sociedade.

* Fonte de todas as fotos: Alfabetização Visual 

Para saber mais sobre a mostra e sobre esse projeto, visite:

Seção Geraes de Minas

Hoje a seção Geraes de Minas apresenta um belo poema do novo colaborador (espero) oficial, Lázaro Barreto, que descreve no poema abaixo os muitos e poéticos nomes de algumas cidades, lugarejos, povoados, enfim, dos tantos cantos desse imenso 'país' chamado Minas Gerais. Aproveito para agradecer - publicamente - ao Lázaro e dizer que suas contribuições serão sempre muito bem vindas.


Toponímia dos Campos e das Minas Gerais 
Lázaro Barreto.


                                                                    

                                                                    Cabeceira do Buriti

                                                                      Brejo dos Mártires

                                                                    Córrego dos Nobres

                                                                          Água Emendada 

                                                                  Chapada das Perdizes

                                                                          Onça de Pitangui

                                                                              Sapucaí-Mirim
 
Abre Campos,  Passa Vinte Velho,  Barra da Cega,  Borda Mata

Campo do Meio, Catas Altas da Noruega, Pinta-Pau, Rio Espera

Cava de Fora,  Curralinho de Dentro, Soca-Pó, Sombra da Tarde

Juiz de Fora, Mãe dos Homens, Penha do Capim, Fecho do Funil

São Sebastião das Três Orelhas, Quem-Quem, Palmeiras de Fora

Santa Rita  de Pacas,  Quebra Viola,   Pedra Menina,  Quenta-Sol

Divino do Canivete,   Três Corações,  Volta Bala,   Cana do Reino

Cajuru do Cervo, Três Pontas, Vargem do Paga Bem, Venda Nova

Caracóis de Cima,  Nova Serrana,  Mata do Sino, Gambá de Baixo

Belo Horizonte

Cocais da Estrela

Seio de Abraão

Guarda dos Ferreiros

Senhora dos Remédios

Dores do Indaiá

Acaba Mundo.




Seção "Paulistânia" 

Hoje estou inaugurando uma nova seção, esta a 'Paulistânia', assim sempre que houver alguma razão para falar de São Paulo - seja ela boa, ruim, crônica, notícia, música, gente, fotografia e etc. - postarei aqui. A vontade de criá-la já existia e hoje 'vai ao ar' porque, para além de tudo de ruim que tem acontecido aqui, essa (ainda) é uma cidade que oferece imagens bonitas como essas abaixo (a qualidade das fotos não é boa: foram tiradas com celular). No sábado, fui com uma amiga ao Centro Cultural São Paulo para visitar uma exposição (claro) de fotografia e andando por lá (aliás, frequento o centro cultural desde que vim morar aqui, há 20 anos,  e sempre me encantei com a arquitetura aberta e iluminada de sua estrutura) me deparei com uma cena inusitada. Sob o teto (?) do prédio - que tem bem no centro, um jardim com árvores enormes - como num jardim suspenso, várias pessoas tomavam sol, conversavam e observavam a paisagem. Parecia cenário daqueles quadros do Renoir, no qual as pessoas se alegram às margens de lagos, mas era essa cidade aqui mesmo: tão violenta (conforme a mídia alardeia), tão contraditória e, nesse caso, tão (alegremente) surpreendente. Então, se você 'pensa' que São Paulo é 'só' violência, PCC e 25 de março, está enganado. 
Pode vir passear aqui sem medo, ok? rs

Nos jardins suspensos do CCSP as pessoas...






...apreciavam a tarde de sábado...














...e me faziam pensar que essa cidade é mesmo surpreendente.









segunda-feira, 12 de novembro de 2012

CRÔNICA DE UMA CIDADE ASSASSINADA





Ana Claudia Vargas


“(...) Como adverte a sabedoria antiga: inter arma silent leges (quando as armas falam, as leis silenciam) “ Zygmunt Bauman



Me esforço para não ser alarmista e para ter uma visão equilibrada da coisa, me esforço para pensar como as pessoas de bem que conheço, que não ficam o tempo todo vendo essas notícias ruins. “Isso faz mal para a gente”, elas dizem, e com toda razão.

Mas então eu não posso olhar para o jornal aqui do lado no qual um menino de cinco anos faz aquela pose tão típica das crianças que não estão muito acostumadas a serem fotografadas.

Na verdade, aquele menino ali, de cinco anos já não existia mais: ele foi assassinado na semana passada, aos 13 anos, lá na Brasilândia, mais um dos tantos bairros violentos daqui de São Paulo.

Ele é só mais um dos muitos que já foram assassinados nessa verdadeira onda de terror que tomou conta da cidade (e lá vou eu, me alarmando...), um menino negro e pobre que estava passando na frente de um bar bem na hora de mais um  tiroteio e o final foi esse.

 A mãe dele disse em entrevista para a repórter Carolina Leal, da Folha de São Paulo: “Uns coitados como o William, que não têm nome, não têm dinheiro, nunca ninguém vai descobrir quem matou”.

E quem vai questioná-la?

*****


186...
...até agora.

A contagem da semana passada dizia que o número de mortos estava em 186; mas  nesse final de semana morreram mais 31 (!!!) pessoas. 
Está difícil acompanhar a evolução desse placar sinistro.

E, enquanto isso, governador e secretário de segurança pública se reúnem e discutem e dizem que vão fazer isso e aquilo. Isso lá longe, atrás dos muros altos e bem protegidos do Palácio dos Bandeirantes, rodeados pela imprensa ávida de notícias bombásticas para alimentar a engrenagem incessante das informações que não pode parar (e não pode mesmo, isso não é uma crítica) pois para o bem ou para o mal a imprensa precisa estar atenta.

Mas eu queria é que aqueles senhores engravatados viessem andar nas ruas,  subissem os morros, conversassem com as pessoas e perguntassem para elas se esse modelo de segurança pública  - que há muito e muito tempo já deu sinais de exaustão – anda surtindo algum efeito.

Digo, esse modelo violento e corrupto.

E queria que eles se dispusessem a repensar esse ‘modelo’; a incluir em suas demandas burocráticas e cheias de palavreados difíceis (nem eles entendem, tenho certeza, basta ver as caras que fazem quando são entrevistados) um pouquinho de boa vontade, um olhar mais humanizado para o povo dessa cidade que mora nas periferias distantes como a Brasilândia; esses lugares que são verdadeiras panelas de pressão prestes a explodirem (ou antes, em franca explosão) porque tem sido insistentemente ignorados desde que essa cidade existe.

Esses lugares nos quais moram tantos Willians; meninos que vão crescendo excluídos em lugares feios e degradados.

Mas o que isso tem a ver com a tal ‘onda de violência’ ?

********

Muitos especialistas disso e daquilo têm sido chamados para falar sobre a dita 
onda de violência, que não é a primeira e, infelizmente, não será a última.

Hoje mesmo o programa Roda Viva da TV Cultura, abordará o tema.
(Para saber http://tvcultura.cmais.com.br/rodaviva)

Pois bem: a gente ‘sabe’ por ser humano e por ser parte de tudo isso que a civilização pós-moderna (para usar um termo polêmico) criou e cria e etc., que tudo isso aí é apenas a ponta do iceberg.

No fundo a gente sabe que as coisas precisam e deveriam mudar: São Paulo já não tem mais lugar para tanta gente, mas todos que estão aqui, deveriam poder  viver com um mínimo de dignidade. 

Antes, preciso dizer que não estou defendendo a tese de que viver amontoado ou ter uma vida restrita financeiramente é desculpa para  virar bandido.
Quanta gente há que vive nos piores lugares – sem condições minimamente dignas – e não se torna bandido?

Mas acontece que o ser humano é um bicho deveras complicado e a estrutura do iceberg do qual só estamos vendo agora uma pontinha é formada, sobretudo pelo descaso com que os moradores das tantas brasilândias do Brasil (e o nome do bairro não é bastante representativo?) têm sido tratados desde sempre.

É gente demais e gente jovem demais que vive espremida e que tem os mesmos desejos e aspirações de todos os jovens bem ou mal nascidos do planeta.
É gente jovem demais que tem sido devidamente amealhada pelo crime organizado. 

Gente vulnerável, cansada de ser tratada como criatura de segunda mão e de receber sempre, migalhas.  E do ‘outro lado’, numa das linhas de frente desse  ‘tratamento’ há aqueles que o (des)governo utiliza como massa de manobra para fingir que está agindo de modo eficiente no combate ao crime e a tudo mais que ele representa: os policiais militares. Esses que têm sido covardemente assassinados, esses que são quase sempre, originários das classes dos Williams da vida; esses que ganham salários de fome para arriscar suas vidas no ‘combate ao crime’. Eu também tenho pena deles.

Só sei que é muito (mas muito) revoltante saber que crianças morrem porque os ditos adultos investidos do poder para fazer alguma coisa, estão preocupados demais com os trâmites burocráticos – estaduais, federais, municipais – e tem posturas arrogantes e calcadas (sempre) na ideia de que é com violência que se combate a violência.

A cidade de São Paulo ou a grande São Paulo, para ser mais exata, já vem sendo assassinada diariamente desde sempre e continuará a ser até que aprenda a olhar para as periferias de um modo mais humanizado e menos truculento.

Pareço utópica? Pois eu serei, com louvor, enquanto souber que há crianças como o William sendo baleadas numa guerra que não é delas. 




OS DOIS BRASIS: O DA ALIENAÇÃO E O DA VIOLÊNCIA


                                                       Paulo R. Santos*

Assim como toda cidade não é única, mas duas: a diurna com sua rotina e pessoas características, e a noturna, com sua outra – e muitas vezes perigosa – rotina das sombras e dos medos, o Brasil nunca foi único nem uniforme. E nem poderia ser!

Gilberto Freire, sociólogo da primeira metade do século XX, identificou dois Brasis, herdados do período colonial, aos quais chamou de Casa-Grande e Senzala, nome do livro que publicou em 1933, e que inaugura uma nova fase de interpretação da história brasileira, sem usar as lentes europeias.


Gilberto Freyre (fonte Wikipédia)

Esse duplo Brasil ainda existe e persiste com força maior, apesar dos esforços em amenizar o sofrimento na Senzala. A elite dominante olha da porta ou da janela do casarão, relativamente seguro, luxuoso e pequeno, o enorme espaço por onde circula uma população diversificada nas crenças e nas cores, sobrevivendo como pode, vez por outra - ou quase sempre -, acuada pelas dificuldades e reprimida pela polícia, infeliz herdeira cultural do Capitão do mato e dos jagunços.

A alienação da elite, que é um tipo de violência, alimenta as dificuldades dos herdeiros das senzalas, que vivem em meio a outras formas de violência, tornando-se – muitas vezes – violentos por força das circunstâncias extremas. Uma elite prisioneira do egoísmo e da alienação. Uma população prisioneira da escassa educação e dos desejos não atendidos.

O resultado está bem visível nos números que nos atormentam e amedrontam. Cerca de 45 mil homicídios por ano. Bolsões de violências várias, onde parece não existirem inocentes. O principal agressor, o Estado, alimenta a violência que se estende e amplia para novas áreas, no mínimo por não cumprir com seus deveres constitucionais.


Estados paralelos


Exemplos claros são o Rio de Janeiro com um estado paralelo infiltrado no estado formal, e São Paulo, com um crime organizado capaz de estabelecer regras de convívio entre o legal e o ilegal. A violência de um lado produz a reação igualmente violenta do outro. E não nos iludamos pensando que a situação não se repete em outros estados menos midiáticos ou no coração do governo federal: Brasília. O Brasil sempre foi um país injusto!


Injustiças existem por aqui desde sempre. (Imagem: Wikipédia Free)


A reversão desse quadro melancólico exige coragem e vontade política dos governantes que cuidam (ou não) do erário, dos tributos, e da destinação dos recursos públicos. É preciso investir pesadamente em educação, saúde, cultura, segurança pública, lazer, transporte, trabalho e emprego, dentre outras coisas.

Não como um negócio, mas como o preço pela sobrevivência de uma sociedade que vive no medo e na incerteza, alimentos ricos em violência.


* Paulo Roberto Santos é professor e sociólogo, edita o blog  http://animalsapiens.blogs.sapo.pt/ e é colaborador oficial deste blog.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A Origem das Minas



Hoje, bairrismo pouco é bobagem: são dois textos só sobre Minas:
 no primeiro o colaborador oficial, Paulo Santos, nos oferece um aperitivo sobre a origem das Minas Gerais. 

A ideia da seção também é postar trechos de livros pouco divulgados como esse que o Paulo escolheu para hoje  - "Itapecerica" de autoria de Célia Lamounier.

Já o  segundo texto é uma resenha do livro Memorial do Desterro, do escritor Lazaro Barreto, uma obra que merece ser divulgada.

Boa Leitura!




                                      

Seção Geraes de Minas


Artigo - Como Minas Começou?

 

                                                     
             Paulo R. Santos

Aventureiros chamados de bandeirantes embrenharam-se pelo sertão no final do século XVII, em busca de ouro e pedras preciosas, abrindo assim as primeiras picadas e fazendo os primeiros contatos com os indígenas que eram alvo de captura para o trabalho escravo. Mas foi a Guerra dos Emboabas (1708-09), uma disputa entre paulistas e forasteiros, já igualmente interessados nas minas, que deu origem à Capitania de Minas Gerais, em 12.09.1720, com a capital em Vila Rica.

                                                        ***

(Trecho da Revista Instituto Histórico e Geográfico de MG – Vol. X-63) *

* Conforme citado no livro “Itapecerica”, organizado por CÉLIA LAMOUNIER DE ARAÚJO, de acordo com cópia digitalizada e disponibilizada na internet em 2007: 

“Os descobertos surgiam em todos os quadrantes do território, por isso mesmo
chamado das minas gerais; e ao lado deles os arraiais, mais ou menos densos, conforme a maior ou menor abundância de ouro e diamantes, a reclamar vigilância e assistência das autoridades.  A eficácia das medidas representadas pela criação das vilas dependia da existência das condições mínimas para o seu funcionamento, tais como a fixação de interesses econômicos, o elemento humano para as funções públicas e um nível de cultura suficiente para a formação do espírito comunitário com base nos princípios morais que informaram a
vida social do Brasil desde o início de sua colonização.

Em todo o século dezoito foram criadas somente catorze vilas:

1711 – Vila de Ribeirão do Carmo, hoje Mariana


Mariana - Foto: Danielli Vargas



























1711 – Vila Rica, hoje Ouro Preto
1711 – Vila Real do Sabará
1713 – Vila de São João d’El Rey


S.João Del-Rei - Pintura Rugendas*





1714 – Vila Nova da Rainha, hoje Caeté
1714 – Vila do Príncipe, hoje Serro
1715 – Vila Nova do Infante, hoje Pitangui
1718 – Vila de São José d’El Rey, hoje Tiradentes



Tiradentes - Foto: Cláudio Lopes*



















1730 – Vila das Minas do Fanado, hoje Minas Novas
1789 – Vila de São Bento do Tamanduá, hoje Itapecerica
1791 – Vila de Barbacena
1792 – Real Villa de Queluz, hoje Cons. Lafaiete
1798 – Vila da Campanha da Princesa da Beira, hoje Campanha
1798 – Vila de Paracatu do Príncipe, hoje Paracatu.”


      *  A imagens do desenho de Rugendas e a fotografia de Cláudio Lopes estão disponíveis no site (que vale muito a pena conhecer):      http://www.saojoaodelreitransparente.com.br/  






Resenha: Memorial do Desterro 


Ana Claudia Vargas

“A noção do tempo a escoar no próprio tempo, quando todos os dias começam no mesmo dia que nunca acaba” . (Lazaro Barreto)




Foto: Paulo Santos


Como seria contar a história de um lugar a partir das vivências das pessoas desse lugar? Como seria recriar o infindável mosaico de memórias e histórias que compõem a vida de todos nós?

Enquanto vivemos nosso dia-a-dia, não temos como pensar que estamos construindo histórias que depois poderão servir para formar o intrincado quebra cabeças de toda uma época.

Pois agora imagine um livro que conte a ‘história’ de um lugar a partir da vivência dos anônimos, daqueles que são a maioria, daqueles trabalham e constroem suas vidas anonimamente e que nunca terão seus nomes escritos nas pomposas letras dos livros que analisam o passado ‘de cima para baixo’.

Em tempos de celebridades instantâneas, do ficar famoso sem nenhum esforço ou mérito, de mediocridade ululante – parodiando o Nelson Rodrigues – encontrar um livro despretensioso (mas não superficial, muito pelo contrário) que narra a história de um lugar a partir das pessoas simples – seus afazeres, suas sabedorias, tristezas e alegrias -  é realmente um achado.

Um achado precioso: é assim esse livro “Memorial do Desterro”, do escritor mineiro Lázaro Barreto.

É dele que vou falar hoje na sessão Geraes de Minas porque a proposta aqui é também a de resenhar livros pouco conhecidos sobre a história das Minas Gerais.


O livro


O autor do prefácio Frei Bernardino Leers , de forma exata, escreve: “Muito livro de história é macro-história, virtudes e defeitos (...) de governantes, generais e nações (...). São como fotografias coloridas a distância, de panoramas grandiosos em que os detalhes desaparecem entre os bastidores gigantescos das montanhas e vales (...)”.
Pois nesse Memorial, o autor ilumina as reentrâncias dos vales e montanhas que contornam a região do Desterro – hoje o antigo arraial se chama Marilândia – e assim, revela as muitas histórias das famílias locais e de suas descendências; de lugarejos próximos que já mudaram de nome ou nem existem mais - mas  aqui, é bom lembrar, eles estão fervilhando de vida – das tantas pessoas que ‘coloriam’ esses lugarejos.

Os capítulos, que tem nomes como ‘Os Clãs e os Feudos”; “Uma Família”; “A Religiosidade Popular”; “A Geografia Humana” entre outros,  fazem com que nos sintamos íntimos das pessoas ali apresentadas. É como se entrássemos na casa de cada uma delas,  nas velhas fazendas nas quais moravam  e ouvíssemos  estórias contadas pelos tropeiros que paravam por ali de tempos em tempos, as rezas  e as serestas, e quase podemos ouvir também o rumorejo dos riachos e o barulho do vento nas árvores.

Mas o que torna este  livrinho deveras especial é o fato de o autor escrever contos carregados de poesia e lirismo para tornar o conteúdo mais leve e ainda mais interessante. 

Com nomes como “Dias, meses e anos”, “As partes verdes do sábado” ou “A natureza morta”; ele nos apresenta a história do Desterro por meio de personagens como o Zé Juca e o Tiãzinho, a Maria Euzébia e o João Gaiato; cada um deles talhado na sabedoria e na singeleza do povo do interior de Minas.

“Carradas de meses e dias, anos a perder de vista, vividos nos mínimos momentos da vigília que vai e volta à lucidez e ao sono, sempre ali, sentada no banco tosco de pedra, do lado de fora do casarão, à sombra das magnólias, a cabecear, a fitar nesgas da rua, a mascar o fumo de rolo temperado na cinza do borralho”. 
É assim que começa o conto “Dias, Meses e Anos”, numa arquitetura literária que me lembrou Autran Dourado no seu “Uma vida em segredo”.


Tem ainda a história do Zefolha, das irmãs Morais e de muitos outros personagens que o autor inventou para tornar ainda mais vívidas e quase reais, as histórias das muitas gentes que trabalharam, andaram pelos sertões, carpiram e plantaram, tiveram filhos e os batizaram, ergueram capelas e igrejas, enterraram parentes, fizeram folguedos e acreditaram em assombrações e capetas.


Assim  é este “Memorial do Desterro”, uma viagem no mínimo, diferente,  pela memória de um lugarejo que ainda existe e resiste  ali para os lados de Claudio e Divinópolis, um lugar como tantos outros dessa Minas Gerais e que, como tantos outros, tem particularidades que foram muito bem resgatadas por meio da pesquisa aprofundada e da escrita cuidadosa de Lazaro Barreto.


“No jogo histórico da evolução e do declínio do arraial do Desterro, o autor recupera o movimento humano da região pelos nomes de pessoas, famílias, localidades e fazendas, tropeiros, viajantes, (...) seresteiros, rezadeiras (...). O memorial do Desterro cria a lembrança viva de um lugar no sertão em que tanta gente nasceu, brincou, trabalhou, sofreu, casou, criou família (...)”:  pois faço minhas as palavras do autor do prefácio. 

Neste o Memorial do Desterro uma parte do sertão mineiro ainda vive e continuará a viver por muito, muito  tempo.

Livro:  Memorial do Desterro
Autor:  Lázaro Barreto
Editado pela Diocese de Divinópolis
158 páginas - 1995

O autor mantém esse blog http://lazarobarreto.blogspot.com.br/ no qual mostra outras facetas além dessa de escritor.






segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O FAKEBOOK



...parodiando certo comercial "lugar de gente feliz!" 


O facebook seria apenas um painel virtual das hipocrisias humanas ou porque todo mundo acha que é obrigado a ser feliz, hein? (Arte: Ricardo Inforzato)

Falar mal do Facebook é a coisa mais fácil em um tempo no qual tentamos proteger a nossa privacidade já tão devassada devido a razões que vão do controle que é feito pelos governos desde sempre (com a obrigatoriedade dos muitos documentos que precisamos ter, o  pagamento de impostos variados, o dever de votar e de entregar a famigerada declaração de imposto de renda anual e por aí afora)  até a moda já até meio passada (mas infelizmente necessária), de se colocar câmeras em tudo quanto é lugar: nas ruas, nas escolas (até nos banheiros), nos prédios (até os de padrão de médio para baixo), nas empresas, casas, igrejas e etc.

Ou seja: não há ‘privacidade’ que resista.

Mas então eis que um garoto prodígio lá dos States (são quase sempre eles) inventou isso de um lugar no mundo virtual no qual as pessoas pudessem postar suas vidas, digamos assim, para que seus amigos e os amigos dos amigos e os amigos deles, pudessem estar bem cientes e não terem nenhuma dúvida do quanto essas vidas estão fazendo por compensar a estadia aqui no planeta.
Ah sim, antes tivemos  o Orkut, mas onde foi parar o tal Orkut depois do tsunami chamado Facebook?

Boa pergunta que eu não me darei ao trabalho de pesquisar pra descobrir porque o que interessa aqui é mesmo falar (mal, bem...?) do ‘face’ (porque agora já estamos íntimos dele e dizemos ‘face’).

Pois então: para começar chamar o facebook de ‘fakebook’ é mais clichê do que tudo, eu admito. Aquele cara que escreve na Folha, o para muitos mal humorado e pessimista Luiz Felipe Pondé, em artigo publicado em abril desse ano, já falava sobre o facebook e as tais redes sociais em geral, coisas nada alegrinhas como que ‘potencializam o que é (...)  repetitivo, banal e angustiante” e seria algo que não passaria de ‘uma ferramenta de narcisismo generalizado’.


 Vínculos fracos 



Outro artigo aliás, bem mais aprofundado do que o do Pondé, sobre as tais redes sociais é o “A revolução não será tuitada’ que o escritor canadense Malcolm Gladwell escreveu. Apesar de acreditar no poder que tais redes  têm de fomentar mobilizações,  ele afirma que os vínculos criados nelas são muito fracos para fazer com que tais ‘eventos’, realmente mudem alguma coisa no mundo real, o mundo das manifestações de rua, dos ativistas que literalmente, entram em confrontos dos quais saem quase sempre feridos, seja aqui no Brasil ou lá na Síria.

Mas, enquanto isso, as pessoas lá no ‘face’ que interagem em prol dos “Ocupa” isso e aquilo; talvez tendam a se juntar e a interagir mais pela oportunidade de vivenciar algo legal (como se fosse uma balada e/ou uma ida ao cinema) ou conhecer gente nova do que propriamente porque se preocupam de fato, de verdade e realmente, com os sem teto ou com o futuro dos índios Guarani.

O humano nas redes

Pois é pensando por aí, inevitavelmente a gente retorna à questão humana_ ora, como assim, retorna se são saímos dela, você dirá; mas eu acredito que saímos sim, quando tentamos explicar certas questões que nos atormentam (e são muitas) pelo viés do macro e não do micro_  e percebe o básico, o simples, aquilo que esteve ali todo o tempo e ‘como não enxergamos “ e etc.: a raça humana parece estar regredindo (parece?!) em muitos e variados aspectos  e o tal facebook apenas e tão somente (coitado, dele) é só outra representação disso.

Sem apelar para os ideais de perfeição que sempre perseguiram a humanidade – ou seja: nós – e que já foram destrinchados por pessoas muito cultas, o que não é nem de longe o meu caso – em tratados, ensaios, teses ... uma olhadela no face mostra apenas o lado banal da raça a qual pertencemos (e devo confessar minha hipocrisia, pois estou ‘lá’, já saí e voltei não sei quantas vezes, e agora ‘estou’ novamente, embora não consiga me inserir, fico mais à margem porque quase sempre, as ‘coisas’ que aparecem não me animam a participar de nada. É como se eu tivesse num sambão ou num baile funk e isso para uma pessoa como eu, que gosta de rock  não é exatamente animador rs).

Voltando ao banal: sim, porque é muito mais fácil repicar estrofes do Pessoa ou do Quintana; frases de auto ajuda e conselhos diversos – ‘leia mais’; ‘faça uma doação ao hospital do câncer’; ‘passeie com  seus filhos’ – do que estar no centro comunitário mal ajambrado do bairro ou na reunião de condomínio, numa conversa cara a cara com gente irritada, cansada, suada...tudo ali, ao vivo e a cores.

Eu devia parar de ser tão chata e aceitar as redes sociais apenas como lugar de lazer, como quase um hobby desses nossos tempos modernos, mas não consigo: me irrito quando vejo ‘certas  coisas’, saio, fico tempos sem aparecer, mas daí volto e ...começa tudo de novo.
Meu relato talvez seja apenas a confissão também banal de que sou uma pessoa confusa, alegre às vezes, e melancólica às vezes, entusiasmada por ser gente e revoltada por ser gente e que, ao ir ‘lá’, no facebook, se vê diante das mais variadas futilidades humanas -  pessoas que expõem ali seus almoços, seus filhos, suas viagens, seus passeios e de vez em quando, expõem também suas revoltas com as coisas que lhes acontecem (uma compra mal sucedida, um funcionário que não as tratou bem num lugar X...), seus sonhos de que o mundo seja um lugar melhor (sem que tenham que, de fato, de verdade, trabalhar por isso) e etc.

O ser humano – nós, eu, você, os políticos, os atores da novelona das oito, o cara da padaria  - tem um lado sombrio e mal e cada um vai aparando suas arestas na convivência, vai construindo suas pontes de afetos e esperanças; mas nas redes sociais todo mundo só quer mostrar o quanto eles são felizes por serem eles mesmos e foi justamente por isso que o criador do fakebook – ôps, facebook – ganhou tantos bilhões e virou (óbvio) filme para passar no cinema do shopping e na TV paga.

Como ninguém (talvez pelo fato de ser tão jovem e cria dessa matéria dispersa do nosso tempo)  ele soube inventar esse painel virtual, essa possibilidade de exposição inofensiva (ou nem tanto, basta ver o quanto existe de maledicência, sentimentalismo barato e etc.)  das vaidades e futilidades que argamassam as relações humanas  desde que o homem morava nas cavernas  e gostava de escrever nas paredes.
As redes sociais ficarão – infelizmente – como símbolo dessa nossa época feita de valorização do ego, do excesso ‘excessivo’ de auto-estima (e a redundância é importante) e da total falta de senso crítico no qual estamos todos mergulhados queiramos ou não.
E, enquanto isso, eu, pessoa mergulhada nisso tudo até o pescoço, fico aqui refletindo na grande questão existencial (hamletiana eu diria rs) do nosso tempo: devo entrar, sair, permanecer, ficar, mas com um nome falso, lá, no tal facebook?!


Aqui o link para o artigo do Pondé, caso não consigam acessar, avisem que mando por e-mail.




Seção Geraes de Minas

No (ótimo) artigo dessa semana o Paulo faz a pergunta básica "Por onde anda o ouro de Minas"? Pois é, quem estaria disposto a fazer uma expedição pela Europa para responder  (é claro que em Portugal esse ouro deve forrar igrejas e monumentos, mas e em outros lugares?) tal pergunta? Mas, como ele mesmo ressalta "o ouro se foi e não faz falta" o que sim, faz muita falta é um pouquinho (não se pode pedir muito, afinal) de consciência em relação a essas tantas questões que compõem a história de Minas e claro, do Brasil. 
Um pouco de lucidez, não faz mal a ninguém e o que o Paulo 'deseja' para Minas - 
- "Falta-nos agora uma revolução cultural, que restabeleça um passado coerente e projete um futuro; uma história mais completa" - vale com toda certeza, para este nosso país.


Por onde anda o ouro de Minas?

Boa parte desse ouro e pedras saiu de Sabará e Vila Rica (hoje Ouro Preto),
mas também de outras Vilas, como São João Del Rei e Diamantina.






Escravos com suas bateias garimpam o ouro das Minas Gerais; um ouro que se espalhou e enriqueceu muitos países mundo afora. (fonte: Wikipedia)

Muita gente se pergunta por onde anda o ouro de Serra Pelada, no Pará, onde existiu um verdadeiro formigueiro humano e de repente não se fala mais no assunto. Outros se perguntam por onde anda a prata das minas de Potosi, na Bolívia, outro formigueiro humano de tempos idos e sobre o qual quase não se fala. E as riquezas dos Incas, dos Astecas e dos Maias?

A Capitania de Minas Gerais forneceu, principalmente na primeira metade do século XVIII, uma quantidade imensa de ouro e pedras preciosas que eram levadas para a metrópole portuguesa, contrabandeadas para França e Holanda, e sabe-se lá para que outros lugares, quando os galeões não eram atacados por piratas espanhóis, franceses ou holandeses ou por corsários ingleses.

Boa parte desse ouro e pedras saiu de Sabará e Vila Rica (hoje Ouro Preto), mas também de outras Vilas, como São João Del Rei e Diamantina. Às arrobas eram levadas por naus de guerra para Portugal, de onde iam quase diretamente para a Inglaterra, em pagamento das manufaturas que a Corte não produzia, mas consumia em larga escala.

Com o ouro das Gerais e parte da prata de Potosi a Inglaterra fez a sua revolução industrial. Juntando as riquezas extraídas de suas colônias e os créditos, a Inglaterra foi o primeiro país a instituir a revolução industrial, seguido pelos Estados Unidos e outros países europeus. Tudo com base nessa economia construída a partir do saque e da depredação de outras terras. As mesmas terras que até hoje tentam se erguer pelo atraso produzido pela revolução industrial tardia, como ocorreu na Argentina, no Brasil e no Chile, além de alguns países asiáticos.





Igreja em Tiradentes: a riqueza histórica ainda resiste, essa felizmente, permaneceu...
(foto: Paulo Santos)





















Mas, quem ainda mais sofre com isso são os países africanos. Perderam riquezas naturais e habitantes que foram levados para outros países como escravos para o trabalho nos engenhos de açúcar, nos garimpos, na lavoura, nos serviços sujos e perigosos e até para as guerras em troca de alforria, como na guerra contra o Paraguai e na Guerra de Secessão, nos Estados Unidos, ambas ocorridas na década de 1860.

O ouro das Gerais, principalmente, lastreou o luxo da corte portuguesa no século XVIII. Nem mesmo o Marquês de Pombal, um déspota esclarecido, conseguiu fazer com que a Corte entendesse que era preciso mais autonomia para a nação, e que não se podia sempre comprar dos outros (da Inglaterra, no caso), pelo alto risco de dependência econômica daí advinda.









...assim como a riqueza cultural das festas religiosas populares. (foto Danielli Vargas)



A Capitania das Minas Gerais esgotou-se pouco a pouco, junto com a paciência dos ‘nativos’, até que sedições e conspirações de brancos, índios e escravos começaram a nascer. O século XIX viu o país receber toda a Corte portuguesa de uma só vez (1808); talvez no que foi a maior migração forçada de uma elite em toda a história conhecida, pois cerca de quinze mil portugueses desembarcaram por aqui, apossando-se, em definitivo, do país. Os clãs políticos que ainda hoje temos são, em sua maioria, descendentes desses fugitivos das tropas de Napoleão Bonaparte.

Minas assentou-se em suas tradições e costumes, em seu catolicismo popular, santeiro, tornando-se um estado por onde a política vai e vem, em sua mistura de cores e crenças. Qualquer mineiro atento encontra um pedaço de sua história num raio de cem quilômetros, mas o ouro se foi e não faz falta. O que ficou é resto daquele que fez a Revolução Industrial inglesa. Falta-nos agora uma revolução cultural, que restabeleça um passado coerente e projete um futuro; uma história mais completa. Uma história com menos celebridades e com mais participação popular, como de fato aconteceu.

* Paulo Roberto Santos é professor e sociólogo, seu blog é http://animalsapiens.blogs.sapo.pt/.